Paulo Boa Nova

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TUDO  COMEÇOU NUM PASSEIO NO CITROEN DO MEU PAI       

Quando eu era menino e saía de carro com meu pai, ficava fascinado com o letreiro em neon dos pneus Good-Year  fixado no alto de um edifício da Avenida Farrapos. Eu também era encantado com o logotipo da Coca-Cola! Com as calças Far-West! Com as Alpargatas Roda! Com o Ford 51 (meu pai tinha um Citroen)!

Tive a sorte de nascer nos Anos 50! Época agitada, alegre, de grandes transformações! Cinema Novo! Bossa Nova! Lambretta! Liquidificador! Refrigerador! Fogão a gás! Batedeira de bolo! Rock-and-roll! Brasília! Tudo isso surgiu nos Anos 50! Tais eventos – produtos, movimentos culturais, iniciativas políticas – mudariam a sociedade para sempre. E eu estava ali. Criança de 5, 10, 12 anos, absorvendo todas aquelas maravilhas.

Niege João Raphael Boa Nova, meu pai.

PROPAGANDISTA DE LABORATÓRIO, A PROFISSÃO DO FUTURO

Tudo que era novo, criativo e acima da média,  eu associava à figura do meu pai! Meu pai era moderno, bonito, inteligente! E a profissão dele me deixava encantado – a qual eu também relacionava com novidades – : Propagandista de Laboratório! Que coisa mais linda! Propagandista de Laboratório! Meu pai  era veículo de inovações para a melhoria da saúde das pessoas! Meu pai fazia as coisas acontecerem! Meu pai ganhava bem! Meu pai era genial!

Certamente, foi tudo isso que me levou, no final da adolescência, a estudar para ser publicitário (ou “propagandista”, como se chamavam os fazedores de propaganda no final do Século XIX).  Quando entrei no admirável mundo novo da mídia e da publicidade, fiquei maravilhado. Não somente com o charme e a estética vanguardista da profissão, mas com alguns  profissionais de gerações anteriores à minha.

Muitos deles me faziam lembrar meu pai. Era o caso de Francesc Petit, o “P” da agência DPZ, que era bonito, chique, inteligente e criativo. E sempre usava gravata. Depois descobri, lendo seu livro de memórias, que Petit também era louco pelo pai dele: “Recebi de meu pai a primeira aula de pintura a óleo. Era um artista. Desenhava de maneira magistral.(…) Tive o melhor dos professores: meu pai”.

Francesc Petit, o “P” da agência DPZ, publicitário e artista plástico genial.

 

 

AO OUVIR QUE ISMÁLIA ENLOUQUECERA, EU ENLOUQUECI

Agora apresento minha mãe, a dona Glacy, que as amigas e cunhadas chamavam de Glaça! A Glaça era demais! Foi com ela que conheci a beleza das palavras  e entendi o efeito emocional que a combinação de palavras pode provocar. A mãe recitava: “Quando Ismália enlouqueceu / Pôs-se na torre a sonhar/ Via uma lua no céu / Via uma lua no mar”. E eu, com quatro anos, perguntava: “Mãe! Como podem existir duas luas: uma no céu e outra no mar?”. E ela explicava: “É a mesma lua, meu filho. A personagem, do lugar alto onde se encontrava, olhava para o mar e via o reflexo da lua. Lindo, não é?”! Essa era a minha mãe! Didática, inteligente, abstrativa! Sabia trazer para o mundo cotidiano o mundo da lua. Minha mãe era linda e especial!

Ela também me ensinou a cantar: “Chiquita bacana lá da Martinica/ Se veste com uma casca de banana nanica /(…) Existencialista, com toda a razão / Só faz o que manda o seu coração”. “Mãe, o que é ‘existencialista?’”, questionava eu! “É a pessoa natural, espontânea, que vive o momento”, respondia a mãe! O que disse Petit sobre o pai dele, repito a propósito da dona Glacy: “Minha melhor professora foi a minha mãe”!

]Minha mãe Glacy  e eu no meu aniversário de 1 ano.

Lá em casa, se respeitavam as crianças: quando, aos 9 anos, eu disse para o pai que queria estudar acordeom, ele me inscreveu na aula da professora Dorinha! Aos 13, quando falei em casa que já conhecia alguns acordes de violão  e que gostaria de saber mais, pai e mãe se olharam e, no outro dia, me presentearam com  um lindo Giannini. Na adolescência,  mostrei para a mãe a foto, publicada na revista “O Cruzeiro”,  de um rapaz europeu com gorrinho de lã. A Glaça lançou mão de suas agulhas de tricô e, poucos dias depois, eu desfilava pelas alamedas floridas da Vila do IAPI com um gorrinho de lã mais bonito que o que vira na revista. Meus pai eram gentis e atenciosos! Eu me considero medíocre perto da beleza, da inteligência, da criatividade e da grandiosidade emocional do pai e da mãe.

Por ter este sentimento de alegria e entusiasmo em relação ao pai e à mãe, sempre me chamaram a atenção pessoas importantes que se referiram publicamente a seus pais!

David Rockefller – sócio e por muitos anos presidente do Chase Manhattan Bank – em seu livro “Memórias”: “(…) “Minha mãe e eu tínhamos um relacionamento fácil. Gostávamos de muitas das mesmas coisas. Uma de minhas lembranças mais fortes é seu amor pela arte e como, sutil e pacientemente, ela o transmitiu para mim. Objetos  belos ganhavam vida em suas mãos, como se sua apreciação conferisse a eles uma aura especial de beleza.”.

David Rockefeller, filantropo e ex-presidente do Chase Manhattan Bank.

 

HEITOR CARREGOU LENHA; ELZA NASCEU NO ARMAZÉM

Heitor Müller, ex-presidente da FIERGS, em seu discurso na posse do segundo mandato: “Aos 7 sete anos de idade, na pequena comunidade de Tupandi, então distrito de Montenegro, recebi dos meus pais a responsabilidade de juntar a lenha para o fogão da nossa família! Tarefa que parecia simples, mas que me desafiava pela falta de experiência e pelo compromisso de ser cumprido diariamente! E sem faltas! Hoje, um bom tempo depois, estou aqui assumindo o grandioso compromisso de conduzir o sistema FIERGS/CIERGS”.

Heitor José Müller, industrial e ex-presidente da FIERGS.       

 

Elza Zaffari, proprietária da loja Porto Alegre Bebê: “Eu gosto tanto do comércio, porque nasci dentro de um armazém. Não estou exagerando. A loja ficava embaixo e nós morávamos na parte de cima. Quando o pai saía para visitar fornecedores ou levar mercadorias a clientes, a mãe ficava atendendo no balcão. E eu, no bercinho ali ao lado”.

Elza Zaffari, proprietária da loja Porto Alegre Bebê

 

RICARDO CUIDOU DOS PEDREIROS; JÚLIO CÉSAR PREGOU O AMOR

Ricardo Sessegolo, relatando como ele e Sérgio Goldsztein fizeram da Construtora  Goldsztein uma empresa humana e boa para trabalhar: “Nós conseguimos transformar o canteiro de obras num local bom de se trabalhar. Esta forma de nos relacionarmos com os operários é que ajudou a criar um conceito de empresa que cuida do operário e produz, por isso, um bom imóvel”.  Sessegolo não faz referência específica a seus pais. Mas demonstra afeto e carinho pelos funcionários, exemplo que certamente trouxe de casa.

Ricardo Sessegolo, presidente do SINDUSCON e diretor da Goldsztein.

 

Júlio César Soares da Silva, presidente da Guarida Imóveis: “ Tanto com relação ao cliente interno, como com referência ao cliente externo, temos que imprimir a marca do amor. Basta a gente trabalhar com amor e fazer o que deve ser feito, que as coisas acontecem. Os colaboradores ficam mais motivados! Eles estando mais motivados, vão atender melhor nossos clientes; com os clientes sendo bem atendidos, os resultados aparecem”.

 

Júlio César Soares da Silva, presidente da Guarida Imóveis.

 

 

O SÍMBOLO DA FORTUNA

Quando mandei confeccionar este terno de dólares, há três anos, imaginei que fosse para lançar o novo ciclo de palestras motivacionais, que estreei  em reunião-almoço da ADCE em setembro de 2014.

Hoje, pensando melhor, chego à conclusão de que não foi só por isso. Mandei fazer a fatiota ilustrada com o símbolo da fortuna para representar a rica influência positiva que recebi do pai e da mãe.

Trata-se de riqueza tão grandiosa que, por mais que me esforce e a identifique com clareza, não tive capacidade para, até este momento da vida,  aplicar – e obter resultados de – tudo de bom que o casal Boa Nova me deu. Por que não? Porque sou medíocre e limitado. Meus pais eram gigantes em termos de criatividade, inteligência e capacidade produtiva.

Se por um lado me sinto angustiado, por outro vivo feliz com esta consciência. Como diz o tango de Gardel e Le Pera, “guardo escondida una esperança humilde, que es toda la fortuna de mi corazón”.

Quanto mais estudo, pesquiso e exerço minhas atividades como profissional e cidadão, mais chego à conclusão de que o baú do tesouro está lá atrás. Naquilo que recebemos do pai e da mãe. O mérito de cada um está em saber valorizar e aplicar. Só assim estará contribuindo para um mundo melhor. Como fizeram  Rockefeller e Petit e continuam fazendo Elza, Heitor, Sessegolo e Júlio César.

Agradeço ao doce amigo Nenê Zimmermann que, ao solicitar este artigo, propiciou-me empreender profícua viagem por um passado que ainda é tão vivo e tão presente, e também me motivou a homenagear amigos que  tanto admiro. Um beijo, Nenê! (Paulo Boa Nova)

 

 

1 COMENTÁRIO

  1. O Paulo boa ova é uma das criaturas mais vibrantes, inteligentes com quem eu já convivi na vida.
    Fiquei preocupado ao vê-lo vestido com este terno (o dólares), tenho medo que o coloquem numa mala e comecem a correr com ele por estacionamentos de pizzarias entre Brasília e São Paulo.
    Abração. saudades. Maneca.

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