Cassio Sclovsky Grinberg

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Quando a mãe andou de skate

 

Minha mãe foi a primeira skatelosopher que eu conheci, mas só me dei conta disso um dia desses, quando reencontrei um artigo do NYTimes que fotografei numa viagem que fiz com a Déia para Nova York em 2012, enquanto bebia um Starbucks que eu trouxera ao quarto do hotel esperando que ela ficasse pronta. E por que eu fotografei o artigo? Porque ele falava do skate, ali como forma de deixar para trás a ‘crise da meia-idade’: mostrava exemplos de homens e inclusive mulheres com mais de 40 anos de idade (em alguns casos, até com mais de 50 anos) se utilizando do skate para ‘escapar da máquina corporativa’ e, segundo o jornal, ‘estender a adolescência até a porta do asilo’. Que coisa boa, pensei ao reler aquele trecho cinco anos depois, se pudéssemos nos manter sinceramente jovens até a beira da morte. Pouco depois que voltei daquela viagem, minha mãe teve a reincidência de um câncer que já era para ter sido eliminado, e morreu meses após. Lembrei, relendo aquele artigo, com dor e carinho de sua penúltima tarde: ela, que sempre evitou conversar comigo sobre a morte, que não deixava de levantar do abrigo do sofá para me fazer café, que me mostrava com orgulho as pinturas lindas que, até bem no fim, ela fazia com o dedo no iPad, naquela tarde acordou de sua inconsciência, chamou todos nós — que estávamos ali apenas esperando o fim — e disse que queria falar. Disse que estava partindo, e deixou, olhando bem em nossos olhos, uma mensagem para cada um de nós. Para seu marido, ela falou: ‘foi para sempre’. Para mim, ela disse: ‘não precisa ter medo, nunca’. Em contraste àquela silhueta de corpo frágil, eram fortes as palavras que saíam daqueles lábios ressecados, era definitiva a mensagem transmitida por seus olhos: eles nos diziam que, mesmo machucada pela doença, ela ainda continuava jovem de verdade. No final fomos ainda mais cúmplices, eu nunca saí de perto dela. Queria assistir Bonequinha de Luxo? Eu mandava vir o DVD da locadora. Não tinha mais energia para tocar a tinta no papel? Eu lhe comprei um iPad e baixei um programa de desenho e ela, mesmo naquele estado, autodidata rigorosa que era aprendeu em pouquíssimo tempo e dominou aquele instrumento de cima a baixo. A skatelosophy fala disso, mesmo se você nunca subiu em cima de um skate: investir e inovar inclusive em tempos de crise, se divertir e improvisar mesmo quando as coisas ficam sérias. E então, anos depois, relendo aquele texto e pensando nela — naquela tarde que, embora triste, foi a lição de vida mais linda que eu já tive — eu entendi: era como se, aos 67 anos de idade, minha mãe estivesse partindo para o céu de skate.

 

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