Cássio Grinberg

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A última palavra

Cássio Grinberg – estrategista de marcas, escritor, skatista e blogueiro.

Fico às vezes me perguntando: não fosse nossa necessidade de “dar a última palavra”, quantos relacionamentos ainda poderiam estar, hoje, de pé?

Prestássemos mais atenção, será que não sentiríamos nosso cansaço sendo aguçado pelos alfinetes do dia? Os prazos para uma entrega, o difícil equilíbrio das contas, o veneno das auto-comparações nas redes — nossa insegurança bombardeada na casca e, quando vemos, falamos alto demais: mergulhamos no penhasco na inércia, vacilamos na vala comum doméstica, e começamos a discutir — quase sempre por quase nada.

Nos esquecemos de pensar no outro, tratamos a angústia alheia como farelo de pão. E despachamos à nossa maneira: nos tornamos menos beta e mais alfa, vestimos a armadura da disputa e, a partir daí, precisamos a todo custo impor:  nosso ponto de vista, nossas certezas randômicas, nossa necessidade de vencer.

Dar a última palavra não nos faz mais inteligentes, tampouco vencedores de nada: a última palavra prolonga a briga, contamina o clima, piora as crianças. Ataca e não protege, é gasolina e não eletricidade, pode derrubar governos mas não erguerá nada em sua própria casa. Um hábito para lá de superestimado.

É claro que, às vezes, a birra é inevitável: discutir tem medidas saudáveis, mas também tem níveis que ferem, e vão se acumulando sob a superfície da sala em entulho tão aparente que os convidados chegam a precisar desviar.

Dar a última palavra pode representar a diferença entre vocês se reencontrarem 15 minutos após como se quase nada tivesse acontecido, ou ter que tropeçar na valsa do arrependimento: regressar ao que não pode mais ser, prometer o que (vocês sabem) já não pode ser cumprido — de tão esticado, o elástico do perdão pode, uma noite, rebentar.

E então perdemos mais uma chance: a última palavra foi nossa. Mas foi mesmo a última.

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