Marco Aurélio

0
103

Divagações de cafeteria

Por Marco Aurélio Crespo Albuquerque, formado em Medicina pela UFPEL com especialização em psiquiatria e membro-associado da International Psychoanalytical Association.

Divagações de cafeteria: tempos complicados para a psicanálise e as psicoterapias voltadas à compreensão de si mesmo. Porque as pessoas não querem mais ser elas mesmas, querem ser outras. Sua identidade não está mais dentro, está fora, nos outros ou no olhar dos outros. Querem ter os seios que nunca tiveram, a pele de Photoshop dos comerciais, sem rugas que denunciem a passagem do tempo. Desejam a paz de espírito budista, o sono dos justos e a alegria perdida, e a buscam usando um arsenal de medicamentos desenhados com fins específicos para cada desconforto. Num mundo que se caracteriza, aparentemente, por uma individualidade exacerbada, não deixa de ser paradoxal que as pessoas não queiram mais ser elas mesmas, como antigamente. Então a ideia de um tratamento que faça a pessoa ficar mais “ela mesma” torna-se sem sentido, trocada por novas terapias e recursos que prometem que ela “será uma outra pessoa”, supõe-se que melhorada e mais feliz. O problema é que essa suposição não tem se mostrado bem-sucedida nem verdadeira e, quando os recursos milagrosos falham, as pessoas se voltam novamente para a psicanálise e psicoterapias, desta vez pelo motivo errado, porque não conseguiram se tornar as “outras” que desejavam ser. A roda gira e voltamos ao início, ao “conhece-te a ti mesmo” da filosofia. A psicanálise não morreu e ainda tem vagas no divã.

COMPARTILHAR
Artigo anteriorMarcelo Olivieri
Próximo artigoJoão Satt

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here