Ilton Teitelbaum

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PROJETO 18/34: MODELO DE PAÍS

A crise econômica e política afetou diretamente o comportamento dos jovens atuais

Por Ilton Teitelbaum –  Professor da PUC RS

No último dia 7 de janeiro de 2018, todos tivemos a oportunidade de ver publicados pelo programa Fantástico, da Rede Globo, os resultados da pesquisa “Modelo de país”, a 4ª edição nacional do “Projeto 18/34”, conduzido desde 2012 pela equipe do Núcleo de Tendências e Pesquisa do Espaço Experiência, vinculado à Escola de Comunicação, Artes e Design – FAMECOS, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Esta edição teve início em março de 2017 e foi composta por uma Desk Research (coleta de dados secundários), uma Etapa Qualitativa (cinco entrevistas em profundidade com especialistas das áreas de administração, comunicação e psicologia e seis com jovens entre 18 e 34 anos) e uma Etapa Quantitativa (1620 questionários autopreenchidos, pela Internet, por jovens entre 18 e 34 anos, separados proporcionalmente pelas regiões brasileiras, de acordo com as estatísticas do IBGE).

O objetivo principal foi o mesmo que marcou as edições anteriores: traçar o perfil do jovem brasileiro de 18 a 34 anos. Mas, desta vez, também buscamos duas metas adicionais: desenhar uma ideia do país que os jovens almejam e comparar os dados atuais com aqueles coletados na edição de 2013 (a primeira nacional), realizada em uma época de grande otimismo com os caminhos que o Brasil parecia tomar.

Pudemos notar, assim, que as atitudes dos jovens foram transformadas com a crise econômica e política com a qual o Brasil conviveu desde 2014. Nota-se, de um lado, a busca por estabilidade em termos profissionais e, por outro, a ideia de que o futuro do país passa por uma reforma política e por um presidencialismo dotado de mais representatividade e democracia (59,8% querem uma democracia mais representativa, enquanto a ditadura tem uma aderência baixíssima, com apenas 5,9% das preferências).

Em resumo, vimos que uma crise tem seus efeitos pedagógicos – e até positivos. Assim, a estabilidade financeira passou a ser uma das ambições da juventude e, deste modo, trabalhar mais cedo e buscar especializações acabou se tornando uma necessidade em função da redução salarial e pelo aumento no desemprego.

Mas a crise também gera certa insegurança a respeito do futuro, fazendo com que 72,7% prefiram trabalhar com carteira assinada para garantir seus direitos.

Em outras palavras, o jovem passou a priorizar o conceito de trabalhar e ganhar bem, em vez de se manter fiel à ideia de ser feliz no trabalho, tão propalada anteriormente. Ou seja, observamos que ele apresenta uma visão mais ampla de felicidade, compreendendo que esta abrange outras áreas da vida e não apenas o mundo laboral. Também vimos que estabilidade financeira assumiu maior importância, fazendo com que, por exemplo, mais de 50% prefiram se aposentar mais tarde para garantir a manutenção do sistema previdenciário.

Apesar de julgar essa uma evolução positiva, notamos que o quadro não é tranquilo e que a situação gera stress. Em números, 75% dos jovens se sentem sobrecarregados, principalmente em função de estudos, trabalho e projetos pessoais. Assim, ainda que 90% deles não tenham acompanhamento psicológico, 36,1% gostariam de fazê-lo. Já com relação ao uso de medicamentos, 70% deles não usam nem acreditam precisar, enquanto 12,3% deles não utilizam, mas acreditam que seria necessário.

A intranquilidade não é apenas individual: mais de 80% dos jovens estão preocupados com o futuro do Brasil, e veem a reforma política imediata e o investimento em educação como fundamentais para encaminhar mudanças positivas.

Enfim, desenhado este cenário, notamos a mudança pela qual passaram as Gerações Y e Z nos últimos anos: do otimismo claro do início do Século XXI para uma realidade mais tensa, aprendendo a conviver com as oscilações que sempre marcaram nossa realidade – e com as quais as gerações anteriores também tiveram que se acostumar. Afinal, se as características de uma geração são fruto das influências do ambiente, aprender a superar crises deve fazer parte do repertório básico de todo brasileiro que pretenda ajudar este país a ter futuro.

Além destes resultados que acabamos de comentar, a edição “Modelo de País” também tratou da relação do jovem com o próximo, com a informação, com a Internet, com o mercado de trabalho e com o destino do país. Estes resultados estão resumidos a seguir.

Interesses e comunicação:

  • A política continua em terceiro lugar, com uma pequena baixa de 2016 para 2017
  • Os jovens buscam informações principalmente através da internet e as debatem tanto online quanto off-line

Finanças pessoais:

  • Com relação às despesas, mais de 65% dos jovens se consideram moderados, alguém que equilibra os gastos e ganhos
  • Quem economiza diz ser para enfrentar as contas do dia a dia, para ter uma reserva financeira no futuro e para enfrentar emergências

Internet:

  • Passam até 8 horas por dia online
  • Estão cada vez mais realizando compras no mundo digital (m aumento de 7,1 pontos percentuais em relação a 2013), priorizando itens como Streaming, Livros e Eletroeletrônicos

Ajudar o próximo

  • 86,1% afirmam ajudar os outros:
    • Principalmente doando roupas e alimentos para necessitados
  • Entre os que não ajudam, os principais motivos são:
    • Precisar pensar em si para depois pensar no outro
    • Não se considerar apto para ajudar alguém

Mercado de trabalho

  • Cerca de 70% dos jovens já ingressaram no mercado de trabalho
  • +40% deles o fizeram entre 14 e 18 anos
  • Dos que ingressaram com menos de 14 anos, as motivações foram:
    • 47,1% para alcançar independência financeira
    • 41,4% para ajudar a família com despesas
  • Dos que ingressaram com 24 anos ou mais, as motivações foram:
    • 67,2% por estar focado nos estudos
    • 15,5% por falta de vagas no mercado

Carteira assinada

  • 72,7% preferem trabalhar com carteira assinada, não querendo abrir mão de seus direitos

Terceirização

  • Quase 50% dos jovens acreditam que a terceirização deve ser permitida apenas em atividades secundárias

Aposentadoria

  • +50% preferem se aposentar mais tarde, para garantir “que o cofre da previdência não estoure”

Preocupação com o país

  • Aproximadamente 80% dos jovens se dizem preocupados com o futuro do Brasil.

Para que o país melhore

  • Entre os jovens que se dizem preocupados com o país:
    • 70,8% procuram se inteirar sobre assuntos relacionados a política, economia e causas sociais
    • 67,8% evitam praticar corrupções do dia a dia
    • 62,5% buscam votar conscientemente

Pontos positivos do país:

  • +80% Diversidade cultural
  • +40% Modo de ser das pessoas
  • +25% Programas sociais

O vilão:

  • +40% acreditam que são os políticos
  • +30% acreditam que é a população

Mudanças prioritárias:

  • +60% Reforma política
  • +50% Investimento em educação

Mudanças secundárias:

  • 40% Reforma no ensino médio
  • 30% Reforma no sistema prisional

País ideal:

  • +50% baseado na honestidade e na transparência
  • +40% com o uso adequado dos impostos
  • +30% sem desigualdades sociais

Futuro do país:

  • +40% acreditam que o país vai melhorar, crescer e se estabilizar
  • +30% afirmam que o país irá piorar, decair e quebrar

Posicionamento político:

  • +35% dos jovens buscam combinar as qualidades da direita e da esquerda em seu posicionamento político

Solução política:

  • +50% presidencialismo com maior representatividade

Como melhorar:

  • +50% apregoam o foco em necessidades básicas
  • +40% desejam a reforma política
  • +30% almejam a diminuição dos salários dos governantes

 

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