DANIELA PINHEIRO

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Daniela Pinheiro é jornalista e comanda a revolução do projeto editorial da revista Época

 

O Meio & Mensagem publicou essa semana uma entrevista muito interessante onde Daniela fez várias observações muito interessantes que servem de lição para os jornalistas interessados:

 

M&M – Por que a Época decidiu dar mais enfoque para assuntos fora do eixo Rio-Brasília-São Paulo no novo projeto editorial?

Daniela – Nos últimos anos, com a crise no modelo de negócios do jornalismo, as sucursais foram fechadas, os correspondentes desligados dos veículos, o espaço para notícias sobre a vida brasileira minguou. Mas o País continua o mesmo: os problemas, as questões, os desafios, as surpresas, nada mudou. O enfraquecimento da imprensa local foi uma facada no entendimento que os leitores tinham do Brasil, do todo que significa esse País. É um erro, um perigo e uma fraqueza deixar isso de lado. Esse contexto faz com que a gente demore a entender fenômenos locais: um político promissor, um desastre iminente, um canalha em formação. Devemos ter isso em mente e estar de olho. O mundo é muito maior do que as denúncias da Lava Jato ou o assédio no mercado de trabalho — sem desmerecer nenhum desses fatos.

 

M&M – Como você avalia o espaço para conteúdo narrativo e mais analítico atualmente, considerando as mudanças nos hábitos do leitor nos últimos anos?

Daniela – A rapidez das notícias e do noticiário não nos permite mais contar com o vagar de uma publicação semanal. A revista semanal tem de ser surpreendente, trazer furos, enfoques distintos, tem de esclarecer e explicar temas que a cobertura diária não consegue. O nosso site tem de cuidar das breaking news, da reportagem urgente, da conversa por telefone que tivemos com uma fonte, de um papel que nos chegou no meio da tarde. Não dá mais para esperar o fim de semana e o momento certo. A notícia fica velha rapidamente e uma nova realidade se impõe. Nunca estivemos tão bem informados. E, por isso, não precisamos mais gastar papel e bytes com notícias que se espalham feito gripe no inverno pelas redes.

 

 

M&M – Qual é o peso do hard news neste contexto?

Daniela – O hard news é sempre hard news e eu o adoro. Os furos nunca saíram de moda e nunca sairão. É o nosso pão de cada dia. Mas estamos pouco contextualizados, pouco mergulhados nas questões por trás do lide. Acho que temos de sair do ecossistema geral da imprensa, sem abrir mão do factual, sem achar que vivemos num mundo próprio que ignora a realidade. Por que manter uma publicação semanal nesse contexto? Porque a diferença entre o jornalismo profissional e o não profissional nunca foi tão relevante e definitiva. Jornalismo não é para qualquer um. Estudamos, praticamos, entendemos e pregamos o rigor, a ética, a independência e a notícia acima de tudo.

Você enxerga alguma tendência de formatos para o jornalismo, online ou impresso?

Não existe tendência, existe notícia. Não adianta fazer um carnaval num vídeo se ele é oco e não quer dizer nada. Não adianta investir em podcast e a conversa parecer um papo na casa da tua tia de Uberaba — de onde é minha família. No fundo, o que importa é jornalismo — repórter, editor, rigor e checagem. Podem inventar a fórmula que for, você só vai parar para ver ou ler algo, e pagar para isso, se for algo benfeito, que te diga e que te mostre um caminho diferente para refletir sobre um assunto, quebre seus paradigmas, te tire da sua zona de conforto e mude uma realidade.

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