MUITA CALMA NESSA HORA

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OPINIÃO

 

 

Em 2003, um homem entrou furioso num dos muitos endereços da Target, rede de lojas de varejo dos EUA. Sua filha, ainda na escola, estava recebendo anúncios sobre maternidade e gravidez. Ele estava preocupado com o fato de a loja estar incentivando-a a engravidar. O pai ainda não havia descoberto o que a empresa já sabia: sua filha estava grávida. Informação que a Target deduziu por causa da coleta de dados da menina e de outros clientes.

 

A história foi contada por um orgulhoso time de estatísticos da rede a uma reportagem do The New York Times, publicada em fevereiro de 2012, sobre seus consumidores. Eles se gabavam de saber tudo: idade, estado civil, endereço, tempo de percurso de casa à loja, salário estimado, mudanças de endereço, cartões de crédito, histórico de navegação, de empregos, de leituras, de cursos e, claro, quais tipos de produto gostava. Isolados, esses dados podem não dizer muito, mas, quando estatísticos os cruzam, podem até identificar se uma mulher está grávida – mesmo que ela não tenha contado a ninguém.

 

Tudo se intensifica no mundo digital graças a uma tecnologia chamada “Cookie” (Arquivo de computador). Ela foi criada em 1994 por dois programadores: Lou Montulli e John Giannandrea, que trabalhavam no Netscape, um dos primeiros navegadores de internet. De forma bem resumida, um cookie é um pequeno pacote de dados em texto que é armazenado no seu computador quando você usa um navegador. Eles são úteis para deixar a navegação mais veloz e personalizada (e são eles que salvam suas senhas, por exemplo), mas também são usados para coletar dados dos usuários.

 

É por isso que quando você procura, digamos, carro, passa a ver, por dias, anúncios de diversos modelos. O Google e outras empresas que apresentam publicidade online estudam seus cookies e vendem a anunciantes. Claro que nem sempre há uma relação direta: se alguém lê muitas notícias sobre futebol, séries e compra ingressos de show pela internet, o anunciante pode concluir, por exemplo, que é um homem, jovem, prestes a comprar seu primeiro carro. E o usuário passará a ver anúncios de carros mais baratos, mesmo que ainda não tenha pensado em adquirir um.

Giannandrea é o atual chefe de inteligência artificial no Google. Na mais recente edição do TechCrunch Disprut, é a principal autoridade do mundo em Startups Revolucionários, evento de tecnologia no Vale do Silicio que aconteceu em setembro de 2017, ele disse que as previsões apocalípticas sobre o futuro de robôs e algoritmos são exageradas. Apesar disso, reconheceu que estamos apenas no começo:  segundo o engenheiro, é como se a inteligência artificial fosse uma criança de 4 anos sem muito objetivo de vida.

 

Essa criança, no entanto, parece estar aprendendo bastante. Quando mais nos conectamos, mais podemos ser rastreados e mais nossos dados podem ser usados. No mesmo mês desse TechCrunch Disprut, o Facebook anunciou que, por meio da tecnologia de localização do smartphone, pode saber que você esteve em uma loja e então passar a te mostrar anúncios daquele estabelecimento. E você nem precisa abrir o aplicativo para a rede social saber que você esteve lá

 

Computação “Ubiqua” (Oni Presente) foi um conceito cunhado em 1988 por Mark Weiser, ex-chefe de tecnologia da Xerox. No final da década de 1980, ele previa que os computadores não estariam apenas em nossas mesas, mas em nossos bolsos, pulsos e onde quer que fôssemos. Mas Weiser ia além: dizia que, com o tempo, os computadores iriam se dissolver para estar em todos os objetos ao nosso redor. É algo que muitos especialistas e entusiastas começam a enxergar hoje e a chamar de Internet das Coisas.

Mas até onde poderemos ser rastreados em nome da publicidade? E quais as consequências desses anúncios? Será que, tal como na série, passaremos a ser interrompidos e até mesmo perseguidos por propagandas?

 

“Não existe almoço grátis” é uma máxima econômica popularizada por pensadores como Milton Friedman. No contexto digital, ela é ressignificada por autores como Chris Anderson, autor do livro Free- Grátis: O Futuro dos Preços, de 2009.

 

Ele argumentava que, nos séculos passados, vivíamos a “ economia dos átomos”, na qual os custos de produção e distribuição eram altos. Já na economia do século 21, a dos hits, os custos de produção e distribuição partem do zero – e isso permite que certas coisas sejam gratuitas (como jogos, aplicativos, conta de e-mail etc.). Ou quase. Na verdade o novo “gratuito” merece uma série de aspas. Empresas, usuários e plataformas oferecem algo sem cobrar dinheiro, mas vendem dados, apresentam anúncios, propagam ideias específicas e oferecem amostras de serviço que serão cobrados.

 

Em Black Mirror, série de ficção cientifica de Charlie Brooker, vale lembrar, o gratuito é uma “opção”. O usuário sempre pode pular o anúncio, desde que esteja disposto a pagar em “méritos”. Há duas moedas: a monetária e a sua atenção. Não é grátis. Mas a ideia de ignorar uma propaganda é forte, mesmo em nossa realidade.

 

Para assegurar atenção aos reclames, é preciso criar uma publicidade mais interessante e menos repetitiva. “ O conteúdo ainda precisa ser mais adaptado às novas realidades, porque o consumidor está procurando relacionamento com as marcas, não apenas um gatilho comercial. No Brasil e no mundo a maioria das propagandas ainda é mera oferta de produto, não um desenvolvimento de relacionamento, comunicação de propósitos e valores”

 

A computação” ubíqua” (Oni Presente) com tecnologia por todos os lados, logo se torna publicidade ubíqua, com publicidade por todos os lados. Imagine:  sua geladeira identifica que você está sem iogurte e, sabendo que gosta de determinada marca, automaticamente procura e oferece a melhor oferta de compra. Você faz o pagamento pela própria geladeira e, em alguns minutos, o produto é entregue na sua casa.

 

“ A publicidade vai ter que ser criativa para oferecer algo relevante, não intrusivo.  E ela já caminha nessa direção, está ficando menos invasiva e mais sutil”.  Com isso, a tendência é que a gente não tenha mais consciência do que é uma ação publicitária, porque ela vai chegar de forma mais amigável e personalizada. Nessa névoa de informações, já não sabemos ao certo o que são fatos e o que são só ativações promovidas por marcas

 

 

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