Lara Piccoli

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O destaque dessa semana é uma mulher que admiro profundamente, por sua inteligência, conhecimento e conteúdo acima da média. Com esses predicados que o mercado todo reconhece é hoje uma das melhores planejadoras do mercado brasileiro. Suas virtudes não interferem na sua carismática personalidade pois é querida por todos que a conhecem. Lara Piccoli é sem dúvida nenhuma uma mulher multinacional.

 

44 anos em barrica.

Escrevendo aqui sobre a minha trajetória, lembro daquela frase do Gabriel García Márquez: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”. E vou contá-la fazendo um rápido passeio pelo mundo dos vinhos, que, além de uma paixão, é a minha analogia preferida para lidar com uma das coisas mais difíceis da vida: envelhecer.

 

Comecei a vida como um beaujolais: fresca, leve, despretensiosa. Gostava muito de escrever e tive uma rápida passagem pela área da criação como redatora no meu primeiro emprego na vida. Mas a alma inquieta e questionadora de quem sempre busca o porquê das coisas acabou me levando para o planejamento, na consultoria do Marcus Paim, que fazia um trabalho voltado às marcas e às dinâmicas empresariais.

Mas você não coloca um beaujolais numa barrica para envelhecer. E foi assim que me senti: despreparada para estar numa consultoria, afinal, na minha cabeça, era preciso ter experiência para ser consultor. Mas fui ficando, mesmo achando que esse não era o caminho mais natural, e lá descobri a minha paixão pelo branding, um conceito que estava apenas surgindo na época.

Senti necessidade de “encorpar”, e uma longa etapa de estudos veio: pós-graduação em comunicação de massa, MBA em marketing, especialização em comportamento, marketing digital e por aí afora. Foi uma evolução grande, 8 anos de aprendizado e eu já estava mais para um merlot: um pouco mais segura, mas com uma imensa necessidade de me misturar. Colocar os conceitos à prova. Trocar. Assim é essa uva: disponível, flexível e pronta para ser combinada à outra. Sentia a necessidade de estar mais próxima do mundo das agências, de estar mais próxima da execução.

Foi quando literalmente atravessei a rua e fui para a Paim Comunicacão, onde tive uma trajetória de mais 10 anos de muito aprendizado, desta vez com o umbigo no balcão mesmo. Tive a sorte de trabalhar e aprender com pessoas muito talentosas, que não caberiam nesta página, além, é claro, do próprio Cesar Paim e Marcus Paim, e dos clientes. Conheci o Fábio Bernardi e casei com a sua visão de mundo (esse foi o melhor assemblage da vida). Desenvolvi o departamento de planejamento da agência, virei diretora de conta, diretora da agência e vice-presidente. A essa altura acho que a semelhança era com um bom shiraz. Mais corpo, cor intensa e uma uva um pouco mais autossuficiente. Um vinho de maior densidade, escuta, decisão.

Chega uma hora que você percebe que a maturidade chegou. E, com ela, a necessidade de decisões mais definitivas para a vida. Veio então a saída da Paim para um período sabático, em que a necessidade era a de decantar. Deixar entrar oxigênio. Essencialmente, a decantação é o processo de deixar que os sedimentos do vinho se “assentem” no fundo do recipiente. E esse período foi fundamental para a uma reflexão em relação ao que eu queria para a vida e, principalmente, aquilo que eu não queria também (às vezes até mais importante).

O período sabático não durou muito, foram 6 meses de reestruturação interna e fui encarar o maior desafio de todos: empreender. Fazer crescer no RS uma agência que o Grupo ABC estava comprando, a Morya. E eu chamaria essa fase de pinot noir. Leve, macio, intenso, equilibrado. Vinho de pequenas produções. De cuidado. Tudo a ver com a proposta de um trabalho taylor made de comunicação e a criação de um ambiente de aconchego e cuidado das pessoas e dos clientes.

E, desde então, nesses 6 anos de Morya, fomos crescendo e aprendendo a lidar com o que nenhum curso de liderança em Berlim ou Hyper Island resolvem (apesar de ajudarem): o aprendizado sobre liderar pessoas num cenário de transformação de indústria e de alta complexidade. É o momento cabernet. Uva forte, resistente, de longevidade. Com alta capacidade de adaptação. Capaz de ficar anos em barril de carvalho. Vinho de resiliência.

E muitas outras fases e vinhos virão. Será um ano de transformação. Quero investir em educação, tirar um projeto da gaveta, quem sabe escrever um livro e ter um filho. Sem nunca deixar de ter sede por aprender a aprender.

 

Mas, se me perguntassem, qual seria o vinho da tua vida, Lara? Eu não teria dúvida: seria um belo vinho de sobremesa. Porque concordo com o mestre Gabriel no seu ditado, e doces memórias são o que eu quero guardar como minha história. Sempre. Afinal, em muitos momentos, de ácida já chega a vida.

Então, vai lá: abre um Tokaji, curte o final de semana, seja feliz. “Life’s too short to drink bad wine”.

 

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