PÓS-HONESTIDADE – 27-04-2018

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PÓS – HONESTIDADE

A verdade está em baixa. Ela é vítima de corrupção ativa e passiva: ativa quando alguém produz informação falsa e a dispara; passiva quando alguém a consome e, num reflexo, a replica em suas redes. Ambos agem em parceria. O Brasil recente nos oferece  inúmeros exemplos de informações fabricadas e espalhadas por essa parcela de corruptores: Marielle Franco teria sido ex-mulher do traficante Marcinho VP e eleita pelo Comando Vermelho; Sérgio Moro teria ajudado o PSDB a desviar R$ 500 milhões; os tiros contra a caravana de Lula teriam sido invenções do PT;  o Brasil, para Bolsonaro, não teria homofobia, e 90% dos assassinatos de homossexuais ocorreriam em locais de consumo de drogas e prostituição; a     “ ideologia de gênero“ estaria pervertendo a sexualidade de crianças por todo o país.

Ainda que a mentira seja tão velha, sua escala industrial, velocidade de propagação e capacidade de customização cirúrgica, conforme o perfil do receptor, deram ao fenômeno uma dimensão desconhecida. A mentira que perdura fora do alcance do radar público pode produzir danos irreversíveis quando a contestação ou o desmentido chegam tarde demais ou quando seu consumidor não está   aberto a dúvida. Seus impactos são sentidos em eleições, políticas públicas e conflitos cotidianos

O obstáculo que isso põe à vida democrática, que depende de cidadãos informados e que definem suas posições com base em fatos reais elementares, é evidente. Se um cidadão não sabe o que aconteceu em sua esquina, se aceita qualquer versão dos fatos que lhe oferecem ou se não conhece fontes respeitáveis que lhe expliquem causalidades complexas da vida social, como a violência ou a falta de emprego, não poderá dizer que se autogoverna. Será presa fácil para a dominação e a manipulação. Um fantoche não é um sujeito livre em qualquer sentido genuíno da palavra liberdade.

A baboseira dos contadores de estória, tornaram-se os “baboseiros” da política estranha que formam o pós-honesto.

O pós- honesto diferentemente do mentiroso, não sabe se está mentindo e nem quer saber. Para ele, a verdade pouco importa, pois joga outro jogo: a versão que comunica almeja despertar afetos e reações impulsivas, de marcar o pertencimento a um grupo, de definir identidades e contrastes. Mira o fígado, mas não a mente. O pós-honesto é inimigo mais sério da democracia do que o mentiroso, pois promove o eclipse da verdade como critério a partir do qual decidimos e agimos. Quanto mais a pós- verdade permeia nossa relação com a esfera pública, mais perdemos a capacidade de ser honestos.

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