A QUÂNTICA NAS NOSSAS VIDAS

0
29

OPINIÃO – 04-05-2018

A QUÂNTICA NAS NOSSAS VIDAS

Nos processos quânticos, a probabilidade de que algo aconteça está associada à quantidade de energia exigida para fazê-lo acontecer. Se um elétron pode se transferir para uma camada de energia no átomo com muito pouco dispêndio de energia, e para um outro nível com grande dispêndio de energia, há muito maior probabilidade de que ele faça a transição de baixa energia. Ele é livre para fazer qualquer transição, nada é determinado, mas é muito provável que ele escolha a opção mais fácil. E assim ocorre também conosco, embora por sermos muito mais complexos que os elétrons, os fatores que influenciam as exigências energéticas de nossas várias escolhas também são mais complexos.

Como pessoa quântica tenho natureza e essência. Tenho um corpo, tendências genéticas, experiências e reflexões sobre essas experiências, tenho caráter e sou em grande parte definida pelos relacionamentos que estabeleço com os outros. Todas essas qualidades causam impacto em minha memória quântica, naquele ponto de encontro indeterminado entre o ser que sou e o ser em que estou me tornando — aquele ponto onde são feitas as escolhas. E a natureza desse impacto é que ele influencia as probabilidades de minhas escolhas. Toda a história e constituição de meu ser aumentam a probabilidade de que eu faça certas escolhas e diminuem a probabilidade de fazer outras.

A razão ligada à possível escolha de deixar de fumar é a de que isso prolongará minha vida; a razão ligada a não deixar de fumar é a de que isso me dá prazer. Mas, dada a associação destas razões com aquelas escolhas, é mais provável que eu decida parar de fumar. A associação entre razão e escolha torna as escolhas corretas mais fáceis, menos exigentes de energia, ela faz a balança pender, mas não garante o resultado desejado.

No processo de viver, pensar e relacionar-se, estamos reforçando ou modificando as probabilidades de que nossas escolhas tenham este ou aquele resultado em particular. Estamos viciando os dados quânticos e canalizando a direção de nossa liberdade. Cada escolha que faço tem influência sobre a próxima que farei, pois aumenta ou diminui a probabilidade desta escolha. Nenhuma das minhas escolhas, não importando quão diminuta ela seja, está despida de significado para o resto de minha vida.

A natureza quântica de nossa consciência torna tentador fazer escolhas que exijam um mínimo dispêndio de energia, a menor concentração. E por esse motivo é que somos por natureza criaturas de hábito e imitação.

O hábito é uma espécie de carona, exige muito pouco esforço mental. Tendo feito algo de uma forma uma primeira vez, tendo feito uma escolha em especial, é muito mais fácil repetir a mesma coisa e, portanto, a probabilidade de que isso aconteça é maior. Nesse sentido, deveríamos usar o melhor de nossas faculdades mentais para avaliar o valor dos hábitos que estamos adotando ou as qualidades daqueles que estamos imitando. A escolha original que leva a um hábito talvez nos custe pouco, mas depois, se quisermos quebrar o hábito, a tarefa poderá tomar proporções hercúleas.

O mesmo se aplica a deixar que nossas ações brotem da conformidade com os códigos de comportamento vigentes ou da adesão a códigos de dever rigorosamente definidos. A escolha inicial de seguir tais códigos exige alguma concentração, embora não muita, se já estivermos parcialmente definidos quanto aos costumes sociais e relacionamentos que os fundamentam. Mas, uma vez feita a escolha, podemos continuar a viver de uma forma que vicia as probabilidades contra qualquer forma de comportamento que, para ser adotada, exigiria as qualidades de um herói.

Nenhum de nós pode ser herói em todos os momentos da vida e, enquanto os costumes vigentes ou os códigos de dever aos quais subscrevemos forem basicamente razoáveis, a necessidade de heroísmo individual pode ser evitada sem dano a nós mesmos ou aos outros. Se nossa aceitação dos costumes vigentes provém de um compromisso (que é uma decisão que se renova, com energia, repetidamente), e não de um mero hábito, então a própria conformidade pode ser uma maneira criativa de viver.

Ao decidir, finalmente, entre minhas duas opções, estou decidindo entre dois seres que poderei me tornar e entre os diferentes mundos que eles poderão ocupar. A escolha é livre, nada a determina. Embora o caráter que construí e o tipo de vida que vivi até então pesem sobre as probabilidades de escolher um ou outro, eu posso — e muitas vezes o faço — agir “por uma questão de caráter”.

Se eu escolher a fidelidade (e todos os seus valores auxiliares), minha escolha age aumentando a probabilidade de que outros farão a mesma escolha. Meu ser está entrelaçado e em correlação não-local com os outros de meu grupo ou sociedade, e as decisões morais que eu tomo ressoam pelo mundo que partilhamos, o mundo que criamos juntos. Se escolho quebrar meus votos de casamento, faço com que seja mais provável que outros tomem a mesma decisão, que mais famílias sejam dissolvidas, que a instabilidade social aumente etc. Não há fim para a corrente de influências que parte da minha decisão. Sou responsável pelo mundo porque ajudo a fazê-lo.

O valor de descobrir os significados atribuídos às minhas escolhas é o de que a descoberta (essa articulação) leva-me de volta àquele momento de liberdade no qual fiz a primeira escolha, o momento de decisão que levou a uma corrente de decisões que, por sua vez, se tornaram parte do meu estilo de vida e daquilo a que dou valor — meu mundo.

Nossa liberdade fundamental, o fato de a escolha que fizemos ser apenas uma dentre as muitas que poderíamos ter feito, é o que torna esse renascimento possível, e dá a cada indivíduo um papel central na evolução gradual da consciência.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here