RICARDO SEMLER

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O Meio & Mensagem está circulando uma entrevista com um dos maiores palestrantes do Brasil e um dos profissionais que mais inovou durante esses anos todos no mercado. Semler escreveu livros que se tornaram sucesso em vendas no Brasil e exterior, destacando-se o primeiro, Virando a Própria Mesa (1988) e Seven-days Weekend(2003). Atualmente ele é presidente do Conselho e sócio majoritário da Semco Partners, sucessora do grupo Semco. Foi vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), é articulista do jornal Folha de S.Paulo e Sócio da Tarpon Investimentos em São Paulo, Brasil.

 

Confira a entrevista que ele fala mais sobre a Lumiar:

Meio & Mensagem — A Lumiar nasceu há 15 anos, com a ideia de preparar pessoas para trabalharem em organizações descentralizadas e transparentes. Como avalia a jornada da rede de escolas, hoje?
Ricardo Semler — Essa sabedoria não chegou às organizações, o que se relaciona um pouco com a história da Lumiar. Com ela, procuramos dar respostas a esse conjunto de perguntas. Do lado empresarial, tocamos um projeto que demonstrou que não precisava dos apetrechos corporativos para fazer as pessoas quererem trabalhar. Jovens que chegavam à Semco geralmente haviam sido subjugados na escola. Desde os dois anos de idade. “Senta aí e fica quieto, agora você vai fazer isso. Depois, vai fazer aquilo.” Quisemos analisar do ponto de vista do desenvolvimento, para saber aonde havia começado aquele problema. Vinham até nós com 22 anos, ao fim da faculdade, e perguntavam: “O que eu faço? Aonde eu sento? Quem vou ser daqui cinco anos?” Se você der um fast forward nessa mentalidade para millennials, geração Z, percebe um gene defeituoso, o mesmo de anos atrás. Insistem na mensagem de que trabalhar com jovens é ótimo, porque eles trazem o cachorro para o trabalho. Não é bem assim. É uma geração muito autocentrada, que pede demissão quando quer, não cumpre aviso prévio e muitas vezes faz isso sem outro emprego na mão, simplesmente porque cansou e não quer mais. Qual empresa tem sabedoria o suficiente para reunir os melhores desses profissionais jovens — que tem energia mas tem de ser nos termos deles — com profissionais de 60 anos, que têm conhecimento, embora menos disposição? Parte de nossa tentativa de responder a isso é a Lumiar, para tentar verificar quando estragamos essas crianças. Em que momento a gente cismou em ensinar mandarim, robótica e empreendedorismo para crianças de cinco anos? Ser um grande empreendedor hoje já não vale muita coisa. Pegue o cartão de visita do dono de um food truck: estará escrito que ele é cofounder e CEO (risos). Estamos aqui numa linha de montagem, à la Henry Ford, em que pegamos um matemático que diz “as crianças precisam saber somar, depois subtrair, multiplicar, equação, cosseno, semicosseno…” Química, geografia, história… a mesma coisa. Depois, a criança tenta lembrar de tudo e ligar as pontas. Impossível.

Sempre foi impossível, ou nosso acesso a uma diversidade de fontes e a dispersão de atenção tornou isso impossível nos últimos anos?
Sempre. Tanto que você não conseguiria repetir hoje o mesmo desempenho de qualquer exame que você passou em sua vida escolar. Pode até escolher a matéria. Quando ficou claro que o aluno não ia dar conta do conteúdo, a solução foi produzir uma fraude combinada entre alunos, professores, pais. “Te dei 300 páginas de material de história, mas não dá para estudar tudo. Então vamos fazer assim: vai cair na prova esses 10% de tudo isso aí, você tem tal prazo para estudar.” E geralmente o aluno, ainda assim, vai mal. É um sistema de gradeamento de curva: dos que entenderam o assunto, ele tiraria nota 0,7, mas como isso é inviável porque não convenceria os pais, dos que fizeram a prova, ele tirou 7,5. Então o pai faz de conta que o filho está bem, e o aluno está adorando: “Me diz o que tenho de fazer para você não me encher o saco.” Todo mundo se acostumou com essa fraude, mas começa a ficar desconfortável e obsoleto.

 

Essa constatação que levou a iniciar a Lumiar? Como foi o processo de concepção da escola?
Reunimos muita gente de educação lá atrás, Paulo Freire, o ex-ministro Paulo Renato, professores, pediatras, psicólogos infantis e perguntamos: Como seria educar hoje, do zero? Criamos um sistema que remete à Paideia grega, em que a criança tem um tutor que é responsável por 12 a 15 pessoas. Ele procura saber como está a vida delas, do seu momento cultural, social, como está o ambiente em casa, mas não dá aula. Pois isso não seria equivalente a 1% do que o Google tem sobre o mesmo assunto. Procuramos alguém que seja apaixonado pelo tema que, mas que não seja o tutor, que já tem outras responsabilidades e rotinas. O que mais tem na sociedade é aposentado, só no Brasil são 680 mil novos por ano. Onde está uma boa parte da sabedoria e interesses, hobbies? Também nos aposentados. Trazemos eles para a escola como mestres. Perguntamos às crianças quem está interessado em quais assuntos e, por meio de nossa plataforma digital, conectamos elas com seus mestres. Para cada tema, um mestre, conectado em tempo real com um aluno, pela plataforma, no mundo todo. O sistema não só conecta essas pontas, como dá baixa nos conteúdos básicos exigidos pelo MEC, a partir dessas conversas. Um curso que dá muito certo à distância, por exemplo, é matemática por meio de um violinista. Não tem como tocar um instrumento sem entender de matemática: aquela nota é uma oitava, um terço etc. Ou um cozinheiro para ensinar porções… Tem também a presença física do mestre, além de avaliações, como dos alunos em relação aos conteúdos, que chamamos de “diário de bordo”, e dos colegas em relação a si mesmos, anônima. Esse conjunto de notas e o desempenho do aluno formam um desenho do que o aluno aprendeu ou não.

 

Há uma “Semco Style” da Lumiar?
Sim, no Vale do Silício, em São Francisco, e também um escritório em Amsterdã. Fomos testar lá fora para ver se não era uma jaboticaba. Neste um ano e pouco que temos feito isso, abrimos também uma escola na Holanda, em Utrecht, duas na Inglaterra, outra nos Estados Unidos, em Colorado, uma na Bulgária… No mês passado, acertamos a criação de uma escola na Finlândia. Começou a expandir rapidamente. E não queremos ser donos de escola, o que seria mais uma complicação, chegar a 20, 40 escolas etc. Queremos criar um método de ensino self-managed, que as pessoas possam operar a plataforma e montem na sua escola sem estarmos nós necessariamente envolvidos. E temos o máximo interesse em levar isso a escolas públicas.

 

Da Lumiar original, de São Paulo, já tem se notícia de ex-alunos com esse olhar novo chegando ao mercado de trabalho? Há esse feedback?
Temos duas réguas. A primeira é o quanto eles vão bem segundo os padrões tradicionais: quantos fizeram vestibular, chegaram a boas faculdades, entraram na USP etc. Isso é standard, não é melhor, mas também não é pior. É parecida com outras boas escolas. Nas provas como o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), as Lumiar públicas costumam ter as notas mais altas do município e do estado. O que nós estamos tentando queremos medir mais é quais outras características ou qualidades as crianças da Lumiar têm que as da escola básica não têm. Fazemos há 15 anos um teste simples: vá a uma escola Lumiar e me diz se você não acha aquelas crianças, ao mesmo tempo, parecidas com outras de qualquer outra escola, e um pouco diferentes, no sentido de que falam de igual para igual com você, usando até mesmo termos surpreendentes para a idade deles, sendo mais questionadoras. Não temos um caso relevante de bullying por ano, considerando todas as escolas juntas. Então temos esses indícios, mas alguém precisaria mudar as métricas de teste, para compararmos as escolas na rede Lumiar, porque se verificarmos somente se consegue nota, se consegue transferir para um colégio regular, se passa num vestibular, então sim. Uma parte do que estamos fazendo agora, inclusive com o pessoal do MIT e Harvard, é desenhar esse sistema de avaliação. Eu tenho cinco filhos, todos na Lumiar. Eles têm de estar preparados para qual mundo, para se tornarem o quê? Um dos meus filhos está fazendo 19 anos e, concluída a Lumiar, me falou o seguinte: “Pai, andei pensando… Ou eu escolho uma carreira para ganhar muito e gastar muito dinheiro, com um padrão de vida elevado, mas correndo atrás a vida toda, ou eu aprendo a viver com muito pouco, pois então vou precisar muito pouco e ganho de volta a minha liberdade. Optei pelo segundo”. Ele entrou em geografia social na USP, porque não quer pagar, e vai de ônibus, não quis um carro. As organizações não estão prontas para receber essas pessoas, não tem lugar para elas. O discurso ainda é: “Fica aqui comigo, trabalha bastante, que vou te dar uma promoção, você vai crescer 10% em dois anos…”. Oferecem algo que é pouco valioso num mundo de sabedoria.

Muitos jovens, mesmo sem ter a experiência da Lumiar, têm ambições diferentes das gerações anteriores.
Sim, têm. Em geral tem essa fuga do consumismo puro, mas sem uma substituição exata, sem saber exatamente o que se quer. Não sei se a resposta que a Lumiar dá é melhor, a gente acha que é, mas não sabe provar. Foi mês passado que acertamos a criação da escola na Finlândia. Mesmo nesses países que já têm um sistema de ensino avançado, falam que o próximo ciclo de educação é nessa linha. E o Brasil não acompanhou essa evolução no exterior. Estamos fazendo isso tudo porque nosso interesse maior é mudar a escola pública. Os ganhos marginais são: melhorar a gestão, melhorar o crédito, colocar computador, reciclar o professor… São coisas que não têm demonstrado sucesso no decorrer do tempo. Vemos muitas empresas animadas com a história de adotar uma escola, mas quando começou isso, há US$ 1 bilhão atrás, o Brasil estava na 59ª localização no ranking Pisa, hoje está na 65º. Hoje, você pode até lembrar de algumas escolas com bom desempenho, mas para o sistema como um todo, não. A nossa educação hoje é um Chevette 1973, não adianta colocar nela um motor de 2018 e repintar o carro. Tem de trocar o sistema.

 

Como funciona a parceria do Poder Público?
Precisamos do compromisso dos professores concursados, com a diretora, com as salas, os computadores que já estão lá… É um zero de custo para o governo, ou não seria escalável, então é essencial. Transformamos o professor em tutor e a consultoria dos mestres acontece sem custo. Geralmente, o prefeito ou o secretário testa uma escola. Se lá o projeto anda bem e a fila de espera por vaga aumenta, o problema político está resolvido.

 

Quais camadas a Lumiar coloca sobre métodos de ensino alternativos já consagrados, como Waldorf, Montessori, Construtivista etc.? Quais são as principais diferenças?
As similaridades estão na produção de projetos entre os alunos, no foco no emocional das crianças… A diferença fundamental é que as escolas construtivistas, antroposóficas etc., tendem a trocar as disciplinas tradicionais por projetos sempre: “em vez de matemática, que é maçante, vamos fazer esse trabalho para entender o tatu-bola”. Ao final de um ano a criança foi exposta àquilo que por acaso virou projeto. Se eu quiser comparar com o currículo nacional do MEC ou com o BNCC (Base Nacional Comum Curricular), ou o currículo americano, é impossível, porque a turma passou um tempo agradável investigando o tatu-bola, investiu 20% do semestre nisso, e não acompanhou os conteúdos de geografia, história, matemática que essas bases recomendam. Com a plataforma digital que criamos, conseguimos dar baixa no currículo do MEC, ou dos Estados Unidos, ou da Inglaterra, ou da Holanda. Essa é a principal diferença.

 

Com o fácil acesso a plataformas sociais e a um conteúdo produzido em quantidade mas, não raro, de qualidade questionável, incluindo notícias falsas, tem se falado muito em letramento digital. Vocês endereçam esse problema no método, de alguma forma?
Hoje não tem mais uma alfabetização puramente analógica, simplesmente porque as crianças já nascem digitais. Celulares, tablets pré-infantis… À parte disso, fizemos uma parceria com a Intel para criar um projeto que colocava a alfabetização digital antes da analógica. Queríamos saber qual processo cognitivo se formava se começasse no digital para depois ir, por exemplo, para a caligrafia. Hoje, em qualquer escola de São Paulo, inclusive nas particulares mais caras, as crianças estão aprendendo caligrafia com letra cursiva. Se me der uma caneta, eu acho que nem sei mais como escrever. Preciso reaprender. O letramento digital é muito mais que isso e muito mais do que escrever no computador, e a gente faz o que chamamos de “leitura de mundo”, que ocorre na primeira hora de todo início de dia nas escolas Lumiar: os alunos abrem um jornal digital ou um bom site de conteúdo e selecionam três notícias para tentar entender. Começam a entender fontes, quem disse, de onde veio e até fake news. Então esse questionamento é muito forte. Além disso, uma vez por semana os alunos têm a roda, quando eles se juntam para resolver diversas questões, até mesmo administrativas, podem até suspender ou expulsar colegas. A partir dos quatro, cinco anos de idade, eles já começam a experimentar processos de participação e cidadania muito fortes.

 

Desde as transformações na Semco, passando por todo seu histórico como consultor e autor especializado em gestão, chegando à Lumiar: Qual foi seu principal aprendizado dessa trajetória?
Acredito que o timing da mistura de ideias com execução é o grande obstáculo para tudo. É o que explica tanto o Zuckerberg, como as poucas coisas que eu fiz que deram certo, como as muitas outras que fiz que deram errado. Achar esse timing do que parece ser a execução de uma boa ideia é fundamental. Há 22 anos fizemos uma empresa chamada Homework, que tinha 14 casas de coworking por São Paulo, que funcionavam com um cartão magnético, pelo qual você pagava periodicamente… Fechou há 19 anos. Tivemos há 18 anos a Semco Energia Eólica, que fechou quatro anos depois. A Lumiar era algo de doido na concepção, era meio estranha há 15 anos, meio alternativa há dez, e virou de vanguarda só nos últimos dois ou três anos. Mas não mudou nada desde o início, é igualzinha, o mundo que mudou nesse meio tempo. Apesar de sorte ser um grande componente de tudo, acertar o timing tem sido o maior aprendizado. Que inclusive ainda não completei.

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