Cassio Sclovsky Grinberg

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DESTAQUE

O destaque dessa semana é um cara que entre sustos e buscas, entre querer e fazer é um dos nomes mais em evidencia no mercado gaúcho e brasileiro em consultoria de marcas e construir cases de branding. Estou falando do jovem profissional competente e muito presente que é nada mais nada menos que Cassio Grinberg.

Cassio Sclovsky Grinberg – para onde os erros foram me levando

Quando o Nenê Zimmerman me convidou a escrever sobre minha trajetória, pensei: a maioria fala sobre realizações. Vou falar de meus erros. Dos aprendizados com eles. E dos desvios naturais que eles foram me propondo, tornando minha vida bem mais interessante do que eu jamais imaginava que pudesse ser.

Nunca me encaixei exatamente no “perfil corporativo”, e tentar, durante algum tempo, perseguir a meta de ser executivo de Marketing me trouxe menos realização do que desgastes e demissões. Fui demitido pelo menos três vezes e acredito que, em todas elas, aquilo foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido. Também pedi demissão pelo menos uma dezena de vezes, e comecei projetos que nem sempre foram adiante.

Cometi um erro simples quando pedi demissão do Grupo RBS para ir morar um ano em Londres. Não pela decisão em si, mas pelas oportunidades que deixei passar, tanto no Brasil quanto na Inglaterra. Nietzsche costumava dizer que não sofremos com desejos frustrados se ensinamos nossa fantasia a enfear o passado, mas meu passado tem muita coisa linda: em Londres, concluí uma especialização numa universidade importante, fui barman em pub, sofri antissemitismo, tive namoradas, gastei mais dinheiro do que podia e voltei confuso com o que encontrei no Brasil de 1996. Eu não trocaria essa experiência por nada. E o Grêmio ganhava tudo naquela época também.

Cometi um erro importante quando decidi parar todos os meus projetos para ser escritor. Decidi que queria escrever literatura e tirei, em dois anos, três romances de dentro da cabeça. Os três esvaziaram minha gaveta de angústias e foram publicados com boa receptividade, enquanto dentro de mim se materializavam os ensinamentos desse erro necessário: por mais que eu amasse literatura, não estava disposto a cometer todos os sacrifícios que o ofício exigia: queria aquilo que a geração Y condena, “uma vida material”, com segurança para a família, viagens e patrimônio — e conheço poucos “ofícios” no Brasil que remunerem menos que a literatura.

Também na literatura tomei contato com a habilidade criativa (escola que, por minha mãe ter sido uma valiosa artista plástica, tive dentro de casa), e direto dela fundei a Grinberg Consulting, minha empresa de consultoria em estratégia de marca. Juntei o conhecimento do Mestrado em Marketing do PPGA da UFRGS e passei a desenvolver estratégias, escrever cases de Marketing, fui ficando mais conhecido, evoluindo financeiramente e tendo condições de tomar vinhos melhores e ir ao exterior pelo menos duas vezes por ano com a pessoa que escolhi para minha companheira. Dentre todos os erros que cometi, procurá-la foi o maior acerto da minha vida, e me orgulho de dizer que almoçamos todos os dias juntos.

Errei quando pensei que ter filhos seria um problema, que crianças me atrapalhariam a vida profissional, que eu não teria condições de sustentá-las como merecem, e com isso fui postergando a decisão de tê-los, e depois demorou mais do que esperávamos. Tal erro depois se constituiu num acerto monstruoso, principalmente porque tudo o que eu pensava era verdade, inclusive meu filho agarra meu braço enquanto digito essas palavras. Mas nunca imaginei que o “empecilho” que os filhos impõem (por escolha nossa) são o maior pedido de amor que existe (ele agora subiu para meu colo), e tê-los um pouco mais tarde me deu tempo para fazer 12 anos de psicanálise (um erro caríssimo, que devíamos cometer mais), dar 15 anos de aula (o que amei, até se tornar impossível suportar o custo de oportunidade de horas melhor pagas), e saber que, sobre filhos, temos que entrar no mundo deles assim como eles também têm que entrar no nosso: nossos filhos têm quase três anos e meio e semana que vem partimos para nossa primeira grande viagem internacional de férias.

Acredito que a gente comete erros todos os dias, que a vida recomeça várias vezes, e uma das lições mais importantes de minha vida eu aprendi (me auto-ensinei) entre os 14 e os 15 anos de idade.

Havia uma loja de skate em uma galeria comercial de Porto Alegre, era a loja mais legal da cidade, e em volta dela girava uma verdadeira constelação de skatistas: a loja tinha dois andares e o que importava mesmo era o andar de cima, onde os skates eram montados e o pessoal ficava ali assistindo, batendo papo e trocando peças uns com os outros. Mas tinha algo adicional ali: aquela era a loja que patrocinava os melhores skatistas da cidade.

Aquela foi bem a época em que meus pais se separaram, e o skate foi meu principal ‘canal de escape’. Minha terapia e minha auto-análise: eu voltava do colégio ao meio-dia, nossa mesa tinha apenas ¾ dos lugares ocupados, e para tentar amenizar as saudades eu mal saía da mesa e já estava girando pela cidade. Eu sabia onde estavam as rampas e as pessoas que não me fariam perguntas, e aos poucos aquilo foi se tornando a minha rotina. O skate dormia ao lado da minha cama, e eu levava-o para o colégio. Chegava a acordar no meio da noite e colocá-lo nos pés como se estivesse treinando um jump, um dia cometi (mais um) erro ao pensar que estava pronto para determinada manobra, caí na calçada e tive uma fratura exposta no dedão da mão direita, me recuperei e voltei a andar e, é claro, fui ganhando habilidade.

Tanta, na minha opinião, que numa daquelas tardes lá na loja eu esperei, ansioso, até que ela fosse esvaziando e, quando ficamos ali apenas eu e um dos donos, perguntei se eles não queriam me patrocinar (patrocínio, na Porto Alegre daquela época, não envolvia dinheiro: no máximo um shape, uma camiseta com seu nome nas costas, uns acessórios, seu nome anunciado com patrocinador nos campeonatos, mas sim certo reconhecimento, certo status.). Ele respondeu que a equipe já estava completa, mas disse que era muito legal eu estar ali pedindo aquilo. Disse que sabia que eu estava treinando bastante (eu participava de campeonatos de colégios, às vezes chegava às finais, uma vez tirei terceiro lugar), disse que achava que eu estava andando bem, e aquela situação me fez um bem danado: eu, que era baixinho e usava óculos e muitas vezes não tinha coragem de tirar a menina para dançar, pus lentes de contato e cresci 20 centímetros nos anos em que andava de skate (não estou inventando isso), e aprendi que arriscar não custava nada. Mais: aprendi que nossas vontades, quando verdadeiras, eram como sementes.

Semanas depois, eu descia de skate a lomba da Avenida Mostardeiro (uma lomba íngreme perto do apartamento onde morávamos) e ali, no meio da lomba, havia uma loja de skate e surf. Quando eu passei, os donos estavam ali na frente, e me pararam. E disseram: Cassio, a gente quer de te patrocinar. Topa? Hoje, sempre que apresento uma proposta numa empresa, submeto um artigo a um veículo, ou me ofereço para algum projeto com o qual sonho (e alguém me diz não), lembro dessa história.

E espero um dia ensinar a meus filhos que, quando a vida aperta, a gente tem que encaixar. E seguir fazendo.

Se possível, se divertindo.

Mesmo que a gente erre bastante.

 

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