Julio Ribeiro

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A morte dos absolutos!

Por Julio Ribeiro – Diretor Geral – ‎Editora Press & Advertising

Vivemos a era do fake. Sejam notícias, perfis, posturas, arte, escambaus. Gente falsa, informações falsas, criações falsas. Não que isso, em alguma medida, não tenha existido antes, mas nunca na história deste planeta tivemos tanta mentira, tanto engano, tanta “verdade que esqueceu de acontecer”. Mas, por que isso? Donde se origina esse fenômeno? Quais as causas dessa realidade? Não tenho a pretensão de responder a essas perguntas num artigo de 3.000 caracteres. Precisaria de um ensaio, ou vários deles, para dar corpo a uma teoria consistente. No entanto, me arrisco a um palpite sobre um aspecto específico que, imagino, tenha contribuído decisivamente para esse estado de “pós-verdade” em que nos vemos metidos. Para mim, tudo isso é uma consequência natural do esboroamento dos absolutos. Hoje, tudo é relativo. Com excessão desta afirmação, que parece absoluta. Por milênios, a humanidade viveu de verdades absolutas. Mesmo que essas verdades, no decorrer da história, se mostrassem enganos. O universo girava em torno da Terra, e a Terra era plana, por exemplo (se bem que ainda persistem alguns terraplanistas…rsrs). Certos ou errados, esses absolutos mantinham uma certa “ordem racional”, que sistematizava tudo que existia e aplacava a perplexidade das pessoas ante à realidade cotidiana. Tínhamos um mundo hegeliano, em que a realidade estava submetida a um conceito racional e ponto. Aí veio Kiekergaard e começou a “bagunçar” a coisa, relativizando a verdade como sendo algo de caráter e interpretação individual. A verdade passou a ser subjetiva. Não que antes de Kiekergaard ninguém tivesse ousado dizer que as coisas não eram bem assim como tá no livrinho, mas ele, em meados do século 19, deu um empurrão decisivo nas costas dos absolutos, que ajudou a derrubá-los um século e meio depois. Lembro que nos meus tempos de faculdade, lá pelo início dos anos 80, tive altos debates sobre o relativismo da realidade. Um colega dizia que tudo era uma convenção, que a gente dizia que o telefone era preto porque se convencionou a dizer que tal cor deveria se chamar de preto, mas que ele, se quisesse, poderia chamar de vermelho. Eu achava que aquilo, junto com a cachacinha tomada no Bar do Poli, na FABICO, não ia dar boa coisa. Passamos a viver nos anos seguintes, a Era do Indivíduo, onde tudo passou a ser pessoal. Passamos a ter PCs (Personal Computer), telefones pessoais (hoje, os smartphones nos dão, além de uma linha telefônica pessoal, uma tevê, um rádio, jornais e tudo mais individualizados), personal trainers, personal stylist…verdades pessoais. Então, aquilo que não era, necessariamente ruim, foi minando a ideia de verdade, ou pelo menos de uma verdade absoluta. Tudo pode ser verdade ou mentira, depende de quem diz e de quem ouve, ou lê. Não me impressiona essa pandemia de fake news, que temos hoje. Afinal, se boatos sempre existiram, por que não haveria uma profusão deles em tempos de internet e falta de absolutos? O que me impressiona é que jornalistas, ou seja, profissionais que têm, por obrigação de ofício, apurar os fatos e informar com a maior precisão possível, sejam, em muitos casos, os disseminadores dessas fake news. No Facebook, eu leio os maiores absurdos sendo compartilhados por colegas jornalistas, sem o mínimo cuidado de checar fontes, dados e a própria História. Quando isso acontece, quando jornalistas compartilham, disseminam notícias falsas, o que esperar do restante das pessoas? É o fundo do poço. Absoluto!

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