OS LIMITES DA RAZÃO-26-10-18

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OS LIMITES DA RAZÃO

Você certamente já discutiu com uma pessoa irracional, que manteve a própria opinião mesmo diante dos argumentos mais irrefutáveis. É um fenômeno normal; que os psicólogos chamam de “ viés da confirmação”, tendência que a mente humana tem de abraçar informações que apoiam suas crenças e rejeitar dados que as contradizem.

Isso ficou claro num estudo famoso, e meio macabro, realizado em 1975 na Universidade Stanford. Cada participante recebeu 25 bilhetes suicidas (que as pessoas deixam antes de matar), e tinha que descobrir quais deles eram verdadeiros e quais eram falsos.  Alguns voluntários logo identificavam os bilhetes de mentirinha, forjados pelos cientistas. Outros quase sempre se deixavam enganar. Então os pesquisadores dividiram os participantes em dois grupos: um só com as pessoas que haviam acertado muito, e outro só com os que tinham acertado pouco.

Só que era tudo uma pegadinha. Os cientistas haviam mentido sobre a pontuação de cada pessoa. Eles abriram o jogo sobre isso, e então pediram que cada voluntário avaliasse o próprio desempenho. Ai, aconteceu o seguinte. Quem havia sido colocado no “ grupo dos bons” continuou achando que tinha ido bem (mesmos nos casos em que na verdade, havia ido mal); já os do outro grupo se deram notas baixas, fosse qual fosse sua nota real. Conclusão:

A primeira opinião que formamos sobre uma coisa é muito difícil de derrubar – mesmo com dados concretos. Esse instinto de “mula empacada” afeta até os cientistas.

Quanto mais comprometido você está com uma teoria, mais tende a ignorar evidências contrárias. Há informações demais à nossa volta, e os neurônios precisam computar.

Nosso cérebro é tão propenso à irracionalidade que há que acredite que a própria razão como a conhecemos o ato de pensar fria e objetivamente, para encontrar a verdade e resolver problemas simplesmente não exista.

Na pré-história, isso fazia todo o sentido. Nossos ancestrais tinham de criar soluções para os problemas básicos de sobrevivência, como predadores e falta de alimento, mas também precisavam lidar com os conflitos inerentes à vida em bando (se eles não se mantivessem juntos, seria difícil sobreviver). Só que o mundo de hoje, em que as pessoas opinam sobre todos os assuntos nas redes sociais, deu um nó nesse instrumento. Os ambientes modernos distorcem a nossa habilidade de prever desacordos entre indivíduos. É um dos muitos casos em que o ambiente mudou rápido demais para que a seleção natural pudesse acompanhar.

Para piorar, a evolução nos pregou outra peça; ainda mais traiçoeira: quase toda pessoa se acha mais inteligente que as outras.

Pesquisas atuais revelam que, quanto mais ignorante você é sobre um tema, mais tende a acreditar que o domina. Nos tempos das savanas, isso podia ser até bom. A curto prazo, dá mais autoconfiança.

Agora aplique esta lógica ao mundo de hoje, e o resultado será o mar de conflitos que tomou conta do dia a dia.

Ela pode ser desesperadora. Mas nada indica que seja um caminho sem volta. Nos 300 mil anos da história do Homo Sapiens, estamos apenas no mais recente – e brevíssimo – capítulo. Tudo pode mudar, e como a história ensina, muda. Inclusive porque a inteligência humana ainda não desapareceu. Ela continua viva e pronta, exatamente no mesmo lugar: dentro das nossas cabeças.

 

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