EDUARDO CHEFFE-10-08-2018

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SOBRE TRANSPARÊNCIA, CONFIANÇA E A NECESSIDADE DE CONTROLE

Por Eduardo Cheffe, Diretor da Reframe Inovação Colaborativa

Outro dia, em uma coordenação de grupo com um time de gestores de uma organização,
emergiu o tema Transparência. Iniciamos a conversa após a realização de um Check in onde
cada participante foi convidado a dizer o seu nome, um pensamento e um sentimento que
traziam consigo naquele momento. O tema “confiança” já estava em nossa pauta. Durante o
Check in a palavra “transparência” apareceu várias vezes. Assim, e a partir destas reflexões,
me sinto inspirado para escrever o que segue sobre transparência, confiança e a meu ver,
sobre a necessidade de controle.
– Onde há transparência há confiança. Comentou um deles.
– Sim. É verdade. Aqui neste grupo falta confiança. Precisamos ser mais transparentes.
Complementou o outro.
– Quem disse que para haver confiança é necessário que exista transparência? Perguntei após
algumas falas já provocando reflexões sobre o que estavam trazendo.
– Até pode ser desejado mais transparência, mas quando? Com que intenção? Para que? Quem
sabe ao expressar os sentimentos? Questionei.
– Como assim? Não entendi estas tuas perguntas. Bravejou um já bem incomodado.
Resolvi dar um exemplo meio tosco, mas eles entenderam. Um funcionário chega na empresa
onde trabalha e informa que terá médico e por isso precisa sair com 1h de antecedência. Se há
confiança estará tudo bem e ele sai com uma hora de antecedência. Caso não exista confiança
na palavra do funcionário, será solicitado um atestado médico para que a partir desta
“transparência” seja possível acreditar no que ele falou. Muitas vezes estes modelos são
descritos como regras, processos, burocracia, em fim… Olhos apavorados me cercam.
Nossa sociedade está cheia de exemplos como este. São exemplos por todos os lados. No
colégio, na relação doentia entre alguns casais, nas relações entre pais e filhos nas relações
trabalhistas, na política, por todos os lados se pede transparência como se isso fosse um prérequisito
para a confiança, só que sob o ponto de vista das relações, isto nada mais é que o
exercício do controle. A transparência muitas vezes se manifesta para que possa existir
controle e não para que possa existir confiança. Se eu confio, eu confio. Não precisa me
mostrar nada, não precisa me provar nada, eu confio e pronto. Muitas vezes é preciso provar
algo, é preciso ter um comprovante, é preciso ver com os próprios olhos, é preciso checar com
mais alguém, é preciso pagar alguém para vigiar, para controlar, isso quando as câmeras de
vigilância ou os dispositivos móveis, ou ferramentas e acessórios eletrônicos não assumem
este papel. Sim, até aqui há terceirização, mas isso já é outro assunto.
Agora o que muito acontece é sim existir a necessidade de transparência para que as
informações, valores, dados (seja o que for) estejam disponíveis e possam ser acessados,
acompanhados (controlados) de forma aberta por todos que assim desejarem e de direito
possam exercer este olhar. Desta forma, minha principal reflexão aqui é no sentido de separar
os conceitos de confiança e transparência como se um estivesse diretamente dependente do
outro. Quanto mais eu confio, menos tenho necessidade de transparência. Quanto mais eu
exijo transparência, maior a minha necessidade de controle, e dependendo do caso em
questão isto pode ser uma necessidade muito natural. Reitero, há casos em que a política de
transparência está a serviço do acesso aberto da informação e existe uma linha muito tênue
que separa a confiança da necessidade, as vezes inconsciente, de através da transparência
exercer o controle sobre o outro e não sobre os processos.
Toda esta história se confunde um pouco mais quando trazemos a questão da transparência
para a possibilidade de expressarmos o que estamos sentindo sobre algo. Aqui sim a
transparência está diretamente associada a autenticidade e é uma ponte para estabelecer um
processo de confiança. Quanto mais transparente eu sou ao expressar de forma genuína o que
sinto mais eu estabeleço elos de confiança. Quanto mais eu sou capaz de acolher a
autenticidade (as verdades) do outro, quanto mais eu permito que o outro venha a ser quem
ele de fato é ao estar ao meu lado, mais os vínculos de confiança se estabelecem entre nós.
Esta reflexão não acaba por aqui. Fica uma porta aberta, escancarada para que possamos
pensar, todos, sobre os conceitos e sobre a forma como cada um sustenta a sua intenção.
Creio que a clareza da intenção quanto ao que se deseja a partir do que se sente, proporciona
maior coerência para se fazer um pedido. A serviço de que está a necessidade de
transparência na sua organização? Existe confiança entre os membros da sua equipe? Vocês já
conversaram sobre este assunto? Afinal, qual a sua intenção?

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