LIVRE(?)- ARBÍTRIO-18-01-19

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*Por Diego Zimmermann

 

O professor israelense Yuval Noah Harari, autor de Sapiens: Uma breve história da humanidade e também do Homo Deus e de 21 Lições para o Século 21, opina que o ser humano não é tão livre como acredita. Nosso arbítrio é condicionado a fatores genéticos e ambientais. É fato incontestável que o livre-arbítrio não é uma realidade científica, mas um mito herdado de nossa cultura religiosa e política. É muito difícil julgar até que ponto nossas escolhas são influenciadas pela carga biopsíquica ou se vêm de nossa vontade livre.

A democracia liberal, também tema do artigo de Harari, deveria derrubar os fundamentos de governos autoritários e de antigas crenças em nome somente da verdade existencial.

Segundo a tradição liberal, o direito de escolha é um dos mais elementares direitos da pessoa humana. A dignidade da pessoa humana é desvalorizada quando se impede que o cidadão exerça o seu direito de escolha, tornando o conceito de livre-arbítrio algo questionável.

No mesmo sentido pode ser feita uma análise do novo episódio interativo da série Black Mirror no qual quem controla a história do personagem é o próprio usuário, sendo possível aprender algumas questões interessantes a respeito do conceito de livre-arbítrio. Durante o episódio inteiro o usuário faz escolhas que vão desde qual café da manhã que Stefan deve comer até a definição do rumo de um determinado personagem. Dessa forma, essas múltiplas possibilidades podem nos dar a ideia de que realmente conseguimos definir os rumos da jornada do protagonista, mas ao decorrer do filme o que se percebe é que temos apenas a ilusão de um livre-arbítrio. São várias possibilidades de final, mas todas dentro de uma lógica “quadrada” de certo e errado, ação e consequência. Não há espaços para incoerências, ou decisões contraditórias e/ou desconexas. Você escolhe as opções de acordo com o ambiente e contexto que o personagem estava inserido.

Para concluir, Yuval expressa seu pensamento a respeito do fenômeno que costumam chamar de “livre-arbítrio”: “ Os humanos certamente têm um arbítrio – mas ele não é livre. Você não tem a prerrogativa de decidir que desejos terá. Não decide se vai ser introvertido ou extrovertido, descontraído ou ansioso, gay ou hétero. Os humanos fazem escolhas – mas elas nunca são escolhas independentes. Cada escolha depende de um monte de condições biológicas, sociais e pessoais que você não é capaz de determinar por si mesmo. Sou capaz de decidir o que comer, com quem me casar e em quem votar, mas essas escolhas são determinadas em parte por meus genes, minha bioquímica, meu gênero, meu contexto familiar, minha cultura nacional etc. – e eu não escolhi quais genes ou qual família ter” explica Yuval.

Será mesmo possível escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante?

Para concluir, existe a ideia de que o livre-arbítrio não é algo que se pode dar a alguém. E sim, algo que é construído a partir do próprio autoconhecimento do indivíduo.

Somos livres até que certo ponto? Nos conhecemos até que certo ponto?

 

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