Uma reflexão sobre a internet e a TV aberta – 15.03.2019

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Muito se pergunta a respeito do que acontecerá com a televisão aberta
depois da internet banda larga. Tento responder com fatos nesta simples
reflexão sobre os próximos cinco anos.

Dados.

1) Antes da internet banda larga, 100% da população tinha a televisão aberta
como seu grande companheiro de informação e entretenimento.
2) No Brasil, mais de 70% das famílias vivem com uma renda familiar inferior
a R$ 3.000 por mês. Poder de compra muito restrito.
3) As demais 30% até podem ter banda larga, Netflix, cabo e outras formas de
se informar e se entreter.
O que constatamos: todos continuam assistindo à TV aberta.

Podemos dividir a televisão aberta em dois modelos, por suas características
culturais e econômicas. O modelo Cirque du Soleil, que é a Globo, e o Circo
Garcia, que são o SBT, a Record, a Band e a RedeTV!. Não considerei as
demais emissoras porque as audiências são pequenas.
Esses modelos são a caricatura de como são produzidos e exibidos os
conteúdos desses canais. E penso que ninguém tem dúvidas a respeito!
Até 2014, a televisão aberta reinava economicamente na mídia. Entretanto,
de 2015 até 2018, a queda das suas receitas superou 30%. Uma parte foi
perdida para a crise e outra, para os meios digitais, internet.
A Globo, o “Cirque du Soleil”, detinha e ainda detém, por pouco tempo, mais
de 70% da receita do bolo publicitário das abertas, o que gerava até 2014,
lucros auspiciosos. As outras emissoras, o “Circo Garcia”, arrecadavam o
restante, vivendo com grandes dificuldades e sendo obrigadas a locar
espaços para igrejas e outros arrendatários para fechar as contas.
Hoje, todas as emissoras abertas perderam 30% da receita e não
conseguiram reduzir custos e despesas nessa proporção. Missão muito difícil
para qualquer um.
Como reduzir o custo dos direitos do futebol brasileiro
Missão impossível! Como reduzir o custo e manter a qualidade
das novelas? Outro problema! Resultado: muito prejuízo, inclusive e
principalmente no “Cirque du Soleil”. Quem diria? Falo da TV Globo, não do
Grupo Globo.
O que vejo pela frente.
1) O mercado da TV aberta ainda não estabilizou. Começamos o ano e a
receita ainda está menor do que em 2018, especialmente pela falta das
verbas de governo. Ainda não chegamos ao fundo desse poço.
2) O público da TV aberta ficará restrito às pessoas com renda familiar de até
R$ 3.000. Esse grupo é representado por 70% da população, mas seu poder
aquisitivo é pequeno.
3) A TV aberta tem 80% de sua receita advinda de aproximadamente cem
grandes clientes. Estes, a partir de 2015, dadas a crise e as novas
possibilidades da internet, reduziram suas verbas na aberta. Só lembrando:
faturamos hoje 70% do que faturávamos em 2014.
4) Um fato importante e ilustrativo. Para você fazer um anúncio numa novela
da Globo, o “Cirque du Soleil”, em rede nacional, um anunciante gastará R$
800 mil e terá uma audiência de 30 pontos. Se fizer um anúncio nas novelas
do SBT, Record, Band, o “Circo Garcia”, para atingir os mesmos 30 pontos,
esse anunciante gastará R$ 250 mil. Pois é.
5) Em pouco tempo, esses cem anunciantes vão abrir os olhos, acabar com
preconceitos e, para não ficarem de fora da televisão aberta, que ainda terá
os 70% do público brasileiro, anunciarão cada vez mais no “Circo Garcia” e
menos no “Cirque du Soleil”.
6) Uma coisa é certa, o dono do “Cirque du Soleil” não sabe fazer um “Circo
Garcia”, e o contrário também é verdadeiro. É muito difícil a Globo reduzir
seus custos na razão da atual conjuntura. A Globo não tem cultura e preparo
para ser o Garcia e, se conseguir ser, terá sua receita dividida com as outras.
E as demais emissoras, por força das necessidades, já estão ajustadas.
7) Se os donos do “Circo Garcia” conseguirem sobreviver por mais algum
tempo, vão poder assistir a esse filme em no máximo cinco anos.
Nenhuma crítica ao Circo Garcia, que admiro muito. A televisão aberta é um
veículo popular, como o são os 70% das famílias brasileiras.
Ver para crer!

 

Guilherme Stoliar, presidente do Grupo Silvio Santos para a Folha de São Paulo – 14 de março de 2019.

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