Como o Liverpool usou dados e tecnologia para vencer a Champions League – 07.06.2019

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Além de um dos melhores técnicos do mundo e elenco estrelado, time inglês conta com um doutor em física teórica na equipe.

 

O Liverpool foi o grande vencedor da Liga dos Campeões (Champions League) 2019. O time venceu o Tottenham por 2 a 0 no último sábado (01/06). O que poucos sabem é que a edição deste ano vai além do futebol e abre as portas para uma nova era do esporte. O responsável por isso foi o Liverpool Football Club, time que revolucionou o mercado futebolístico aplicando tecnologia e big data para compensar a falta de dinheiro frente a gigantes do futebol mundial como Real Madrid, Manchester City, Barcelona e Manchester United. Uma das grandes estrelas desse time, aliás, não é o que a torcida esperaria: ele é Ian Graham, um físico teórico formado pela renomada Universidade de Cambridge.

Usando o conhecimento matemático de Graham, a equipe inglesa pôde encontrar novos talentos e oportunidades dentro e fora de campo. Um bom exemplo foi a aquisição do volante Naby Keïta, um dos principais jogadores do time na temporada. O jogador da Guiné foi encontrado no campeonato austríaco, após se destacar em diversos cruzamentos da base de Graham. Agora, está entre os mais valorizados da temporada europeia.

A história, contada pelo New York Times, começa em 2015, quando o técnico alemão Jürgen Klopp foi contratado pelo clube inglês. Três semanas depois de chegar ao time, Klopp se encontrou com Ian Graham, que ocupava o cargo de diretor de pesquisa dentro do Liverpool. Na primeira reunião, Graham apresentou uma série de dados do Borussia Dortmund, clube alemão treinado por Klopp até sua contratação pelo Liverpool. Jogo por jogo, Graham mostrou ao técnico um olhar alternativo sobre as estatísticas. Em um desses exemplos, apresentou uma partida em que o Borussia perdeu por dois a zero, mesmo a dominando o jogo do início ao fim.

“Você assistiu ao jogo? Nós acabamos com eles e perdemos. Não acredito que você assistiu ao jogo!”, disse Klopp para Graham, conta o New York Times. O que ele não imaginava é que Graham, de fato, não havia assistido à partida. Pelo contrário, o seu único interesse naquela campanha era nos números do Borussia – e foi exatamente por conta deles que o Liverpool foi atrás do treinador. Os números colhidos sobre Klopp mostravam que o seu estilo de futebol casava com a proposta que o Liverpool queria impor no novo time. Com isso, convenceu os diretores do clube a ir atrás do treinador alemão. No fim da reunião com Graham, Klopp viu uma oportunidade inédita com o uso dos dados e transformou o diretor em um tipo de braço direito.

Graham é doutor em física teórica pela Universidade de Cambridge. O diretor se especializou na análise de dados de jogadores, para possíveis contratações. Graham conta com uma base de dados de mais de 100 mil jogadores espalhados pelo mundo. Os que se destacam são recomendados ao setor comercial, que tenta contratar os atletas, como o volante Keita.

Atraso futebolístico
Enquanto esportes como baseball e basquete usam estatísticas há anos para melhorar a eficiência dos times (o filme Moneyball – O Homem que Mudou o Jogo, com Brad Pitt, mostra o revolucionário uso de dados no baseball). Até pouco, os únicos dados relevantes para o futebol eram o time vitorioso e os jogadores responsáveis pelos gols. Agora, posse de bola, número de passes errados e certos, número de tentativas de ataque, velocidade de reação para determinadas situações, e um sem-número de dados fazem toda a diferença para a gestão técnica de um clube de futebol.

O Liverpool, por exemplo, incorpora a análise de dados em cada decisão tomada, de negócios a tática. O limite, entretanto, é saber levar isso para o grupo de jogadores de uma maneira mais “mastigada”. É aí que entra o trabalho em conjunto de Graham e Klopp. É o treinador quem decide quais interações e insights vai passar ao grupo. Em sua maioria, dados e números ficam “velados” dentro das instruções do técnico. “Nós sabemos que alguém passou horas estudando aquele conteúdo, mas o treinador não enche a gente com estatísticas e análises. Ele só nos diz o que fazer”, diz o meio-campista inglês Alex Oxlade-Chamberlain, jogador do Liverpool.

Mohamed Salah em preparação para a final da Champions League: contratação foi sugerida por especialista em dados do Liverpool (Foto: Jose Breton/NurPhoto via Getty Images)

Em um exemplo básico, Graham mostrou ao técnico alemão que o lado direito do ataque do Liverpool fazia mais gols com cruzamentos na área do que o esquerdo, consequentemente mudando a forma como Klopp via seu time. Outro exemplo bem prático foi a contratação do atacante egípcio Mohamed Salah, que vinha de uma grande temporada no time italiano da Roma, mas contava com uma experiência malsucedida no Chelsea, da Inglaterra.

Graham, ao contrário de muitos, sempre gostou da passagem de Salah pelo clube inglês. “Houve essa ideia de que o jogador foi mal na Inglaterra. Meus números mostravam o contrário”, diz. Sua insistência fez com que o Liverpool realizasse uma proposta para o jogador em 2017. Além da análise, Graham também cruzou suas habilidades com a de outros jogadores do elenco do time, como o brasileiro Roberto Firmino. Deu muito certo: na temporada passada, Salah fez 32 gols, quebrando recordes no campeonato inglês. Juntos, formam uma das melhores duplas de ataque do futebol mundial.

 Época Negócios Online 01.06.2019

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