Kátya Desessards-28-06-19

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A VIDA COMO ELA É…NA COMUNICAÇÃO

Por Kátya Desessards – Jornalista, 20 anos de experiência em Comunicação Empresarial, na Relação com a Imprensa, em Riscos à Imagem e Reputação, e muito mais coisas que possa aprender na vida e na sua empresa.

A criatura que escolhe ser jornalista, na realidade escolheu nunca na vida ter sossego. Esta sou eu. Nunca há mar manso. Nunca há vida sem emoção. A curiosidade é a primeira ‘mania’ que nunca vai acalmar.

Sempre tive muita vontade de escrever sobre meus pensamentos, reflexões, Mas nunca me achava – suficientemente – capaz pra isso. Tinha um medo velado de expressar o que pensava.

Mas a vida nos dá e tira vontades. Depois dos 40, somos um misto de ‘tanto faz’ com ‘eu posso, eu faço’…Parece meio destemido, mas não. É a experiência lhe dando aval para ser impetuoso com total responsabilidade e até – certa – irresponsabilidade…concedida com ‘risco controlado’.

A experiência de vida nos dá a dúvida como princípio para acertar. Ambíguo? Não. Apenas uma constatação de que podemos bem mais do que achamos e somos bem menos do que consideramos ser.

Quando deixei as redações para abraçar de vez a comunicação empresarial, pensei que havia deixado parte de mim para trás. Ledo engano. Nunca escrevi tanto. Nunca criei tanto. Nunca me provoquei tanto. Porém…sempre tem um porém. Tudo que escrevia era sobre qualquer coisa fora de mim. Coisas – por certo – importantes, relevantes e – até – instigantes. Porém, os poréns sempre vinham me assombrar.

A cada situação da vida real…pensava: “Nossa, poderia falar, escrever sobre isso”. A cada fato da vida real de algo que me indignava…a mente fervia, a mão coçava…e vinha sempre o porém…será que conseguiria escrever sobre esse assunto? Logo me repreendia. Como posso duvidar do meu talento? Como!?

Me dei conta que esta pequena brecha de duvidar do meu talento…deve ter ocasionado algum efeito no mundo externo…pois no transcorrer do meu trabalho há sempre alguém que acredita que precise me ensinar o ‘b – a – bá’ da profissão que estudei 4 anos, me especializei…e tenho 20 anos de experiência. Mas, mesmo com o currículo que tenho… ainda assim, preciso ouvir e fazer cara de ‘paisagem’ para alguém que, não consegue escrever uma linha, mas considera importante dar uma ‘dica’ de como fazer o seu trabalho.

Enfim… a vida é dura. Todos ‘sabem’ sobre comunicação. Então porque não escrevem os próprios artigos… produzem os próprios press-releases e organizam a distribuição e fazem os contatos com os jornalistas nas redações!? E ainda constroem elos de relacionamento para gerar futuros negócios!?

Durante a vida aprendi muito com muita gente. Aprendi com chefes, com colegas, com pessoas que nem sabiam ler e escrever, mas eram sábias. E no final o que – realmente – vai contar é isso.

Acredito que sempre estamos aprendendo. Acredito que podemos aprender com todas as pessoas. Isso é fato. Aprender é um exercício constante. Inexoravelmente, um fato de fato. Mas há diferença entre ensinar e não se respeitar um profissional.

Ao longo de 20 anos de profissão, escrevi artigos maravilhosos para clientes. Tive que estudar e procurar entender com profundidade diversos assuntos. Mas o nome ali no artigo…recebendo os louros eram de outras pessoas… Claro, era meu trabalho. No entanto, de modo geral, sempre se espera um mínimo de respeito. Mas, todos são ‘entendidos’ em comunicação…

E uma das mais bizarras situações é quando um cliente ou chefe vinha sentar do meu lado e fazia uma pergunta… (que confesso, dava vontade de sair correndo pro banheiro rir até morrer): “Como a matéria não saiu IGUAL ao press-release???”; ou, “Como você deixou o jornalista publicar isso!?!?”; e ainda a melhor de todas… “Você pode pedir pro jornalista enviar a matéria pra gente olhar antes??. Pensava: “Sério? Isso está acontecendo? Mas ele não disse ‘saber’ sobre como funciona o relacionamento com a imprensa?”

Por mais que explicasse. Por mais que mostrasse como funciona. Por mais que buscasse engajar outras áreas. Por mais que gastasse saliva… era como se nada tivesse falado. Faziam sempre como queriam. Em 90% dos casos sempre dava algum problema… Dai imagine o que acontecia… Vinha alguém sentar no ladinho e fazia aquela perguntinha: “Eu disse que era em off, por que ele publicou?”. Eu falava… ‘já falei que se não quer que algo seja publicado, não fale”.

E nessas situações, nem dava pra sentir um ‘gostinho’ de vingança… Porque vinha logo mais uma peripécia dos incautos…

O condicionamento mental era tão grande que – em muitos momentos – até duvidava dos meus talentos. Em um post no Linkedin o professor Marcelo Pimenta, consegue dar um nome para este tipo de ‘bulling corporativo’ fazendo uma pergunta:

Você já ouviu falar no Efeito Dunning-Kruger? E ele explica que é… “um fenômeno pelo qual pessoas que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que outros mais bem experientes e preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos. É a sua incompetência que os restringe da habilidade de reconhecer os próprios erros. Estas pessoas sofrem de superioridade ilusória.”

Quando li este post fiquei de ’boca a aberta’ porque finalmente o meu sofrimento tinha um NOME e era REAL. Confesso que chorei.

O professor Pimenta, acalentou meu coração quando trouxe ao debate no Linkedin o Efeito Dunning-Kruger, explicando que… “Em contrapartida, a competência real pode enfraquecer a autoconfiança e algumas pessoas muito capacitadas podem sofrer de inferioridade ilusória, achando que não são tão capacitados assim e subestimando as próprias habilidades, chegando a acreditar que outros indivíduos menos capazes também são tão ou mais capazes do que eles. A esse outro fenômeno dá-se o nome de síndrome do impostor. Isso tem relação com a famosa filósofa frase: “Só sei que nada sei”…”. E como estudo Neurobusiness, que tem como base científica a Neurociência, isso é um dos mais cruéis Memes negativos que consegui – agora – entender que o que vinha sentido nestes anos era totalmente real e eu não sou uma fraude, e sim os autointitulados “entendedores de comunicação”

Mas não passei a vida sofrendo. Quando fiz 10 anos de profissão não deixei mais ninguém, nem cliente, nem chefe, me tratar como se fosse criança que precisasse ser alfabetizada. Claro isso teve um preço e ainda tem. Hoje, continuo aprendendo. A vida é uma eterna surpresa. E isso é maravilhoso. Mas não deixo mais fazerem eu duvidar dos meus talentos, nem da minha capacidade de produzir os resultados que digo que darei.

Tudo é sempre um processo, sei disso. Mas é fato, também, que um profissional de comunicação precisa ter – além de competência no que faz – ter uma capacidade extraordinária de superar todos lhe dizendo o que fazer, como fazer e de que forma é melhor fazer… E ter como um ‘plus’ uma performance de diplomata de alto padrão para negociar paz entre Deus e o Diabo.

E, mesmo assim, haverá alguém que dirá: “Olha, será que você consegue entender esse assunto?”. E a pessoa, com toda a sua convicção… vai esperar uma resposta… Sabe que faço nessa hora? Respiro fundo, olho com todo o amor no coração e digo: “Não se preocupe, se eu não conseguir, te pergunto”.

Um amigo e colega de profissão sempre diz: “haja paciência, mas temos contas pra pagar né… Então, bora fazer cara de paisagem ou de bobo. Pelo menos a cara que vou usar… eu escolho”.

Sempre dei muita risada dessas situações. Mas hoje em dia acho que perdi um pouco o senso de humor. Por que me cansa ter que explicar sempre a mesma coisa, como há 20 anos. É um ciclo vicioso que parece nunca ter fim.

Tem algo muito errado em todo esse processo. Isso é como uma doença que nunca cura…porque é queixa de TODOS os profissionais de comunicação. Não há um que não tenha uma situação dessas para contar.

Tenho muitas teses. Mas uma delas é uma solução: se não colocarem uma disciplina de comunicação empresarial nas faculdades de administração isso não vai mudar. Comunicação é estratégico para a gestão e governança das empresas; fazer a gestão do risco á imagem e da reputação é lógico, mas não entendido como sendo importante estar dentre os indicadores de risco/compliance das empresas; e pior: comunicação gera relacionamento, ai colocam pessoas sem qualquer habilidade pra se comunicar pra atender clientes ou fazer relação institucional. Vai entender…

Ouço sempre: “A comunicação é estratégica para o sucesso da empresa”. Mas ao discorrer uma crise… correm para o departamento jurídico dizer o que devem fazer!!! Ou pior, em Comitês de Gestão do Risco de Imagem tem todo o tipo de profissional palpitando (e o de comunicação ainda nesse momento não foi chamado). Mas no final quando já ‘decidiram’, chamam o ‘cara’ ou a ‘menina’ da comunicação pra ‘escrever uma nota’… O que dizer sobre essa realidade: “KKKKKKKKKKKKKKKK”

Você está achando que é piada? É não. 90% das empresas agem dessa maneira. E 90% delas se dão mal. Dai, em 100% dos casos chamam o ‘cara’ ou a ‘moça’ da comunicação e perguntam: “Por que a nota não deu certo?” E, efetivamente, te olham e querem uma resposta.

Oi…!!!!!

E olhando todas essas situações bizarras que já passei. Me pergunto: “Como posso duvidar do meu talento!?” Devia, no mínimo, ganhar o Oscar, por interpretar a melhor ‘cara de paisagem da história’.

E me foco na realidade das experiências onde tive plena condição de atuar, de mostrar capacidade, de dar resultado e ser respeitada por isso. Sim, fiz muitas coisas maravilhosas e isso ninguém vai tirar de mim. Deixei minha marca em muitas empresas. Realizei grandes trabalhos e feitos que nem em outra vida alguns chefes ou clientes teriam ousadia ou talento de fazerem.

Sim, tive chefes e clientes maravilhosos que me deixaram agir, aprender, errar e mostrar meu talento. Sim, tive pessoas maravilhosas que me deram oportunidades e abriram portas. Sim, tenho gratidão e a grande maioria deles sabem disso, pois temos contato até hoje. Muitos viraram amigos.

E voltando aos tempos de hoje… tenho me feito uma única pergunta: “Preciso ouvir e vivenciar – continuamente – estas situações AINDA!? Mesmo com 20 anos de experiência COMPROVADA!? Tenho!?”

Trabalhar com comunicação é um ato de amor ao próximo. Essa é a única explicação lógica. Olho no espelho e consigo dizer: “Amo o que faço”. Mas tô – quase – desistindo… “Bora respeitar a gente!!”

 

 

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