Marília Rizzon – 02-08-19

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TAMBÉM ESTAMOS À VENDA NA INTERNET

Por Marília Rizzon – escritora e jornalista

Já assistiu o documentário The Great Hack, lançado há uma semana na Netflix? Ainda não?  Então, assiste, por favor. Porque é um choque de realidade sobre o que realmente está por trás dos comportamentos que temos visto mundo afora.

The Great Hack escancara como a internet pode e – infelizmente – está sendo usada sem ética alguma para provocar mudança de comportamento, e assim manipular as pessoas e os rumos do mundo. O documentário nos revela isso enquanto acompanhamos a batalha judicial que o professor universitário norte-americano David Carroll se envolve com a Cambridge Analytica, uma empresa que vende dados e mudança de comportamento, ao reclamar os seus dados pessoais de volta. E também a jornada investigativa da jornalista Carole Cadwalladr, do The Guardian,  que tornou pública a história sobre a Cambridge Analytica.

Acima de tudo, The Great Hack nos faz refletir sobre como, na internet, não apenas coisas, mas também nós, estamos à venda. Isso acontece porque empresas de tecnologia, tais como Facebook, Amazon, Google, a quem demos nossos dados em nome de livre conexão, fazem uso desses dados para o bem (a conexão), mas também para o mal, ao vendê-los para usos que nem desconfiamos e sem se importar pra que serão utilizados.

“Vocês começaram a conectar pessoas e estão se recusando a reconhecer que essa mesma tecnologia está agora nos afastando”, aponta a jornalista Carole no TED sobre o papel do Facebook no Brexit, um talk que ela fez no Vale do Silício, se dirigindo aos poderosos da vez.

Sim, as empresas de tecnologia são as novas donas do poder, já que detêm o commodity mais valioso atualmente: nossos dados (que já valem mais que o petróleo, a propósito).

Tal concentração de poder, que o documentário escancara, fez a Europa sair na frente na busca de regulamentar o uso da Inteligência Artificial. E do uso dos nossos dados para fomentar manipulação de comportamentos, separação e manipulação.

“É isso o que queremos? Deixar que eles saiam impunes e voltemos a brincar com nosso celular, enquanto caímos na obscuridade?” Carole questiona a nós, na outra ponta dessa gangorra. “Não podemos deixar que essas empresas de tecnologia tenham poder irrestrito. Cabe a nós: você, eu e todos nós. Somos nós que temos que retomar o controle”, finaliza a jornalista em seu TED.

O documentário se encerra com uma mensagem muito similar, com o professor David Caroll conversando com seus alunos, dizendo que não há como sair da rede. Mas que devemos ter consciência de como o uso desses dados afetam a nossa vida, pois o que está em jogo é a nossa dignidade como seres humanos.

Ao usar Inteligência Artificial para criar, na linguagem de Budha, véus de ilusão específicos baseados em medos e temores individuais e, assim, manipular pessoas e os rumos do mundo, estamos alimentando o Lado Obscuro da Força – sempre mais rápido e sedutor, como nos ensina mestre Yoda.

Pra mim, o que fica claro em The Great Hack é que, em qualquer circunstância e dimensão, a ausência de preceitos éticos e consciência faz florescer o mau uso do poder. Seja usando dados pra manipular resultados de eleições, seja roubando ideias que são apresentadas por terceiros e copiadas descaradamente. Por isso tudo, digo e repito ainda mais convicta: só a consciência, o conhecimento e a ética salvam.

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Marília Rizzon é escritora, jornalista com pós em Astrologia, inventadeira e autora do romance Num Sofá de Bolinhas – Amor & Terapia.
Compartilha histórias que inspiram e trazem sentido para a vida e fala da dinâmica do mundo, muito além das coisas do cotidiano.
www.lilarizzon.com.br

 

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