Indústria criativa acelera revitalização do 4º Distrito – 20.12.2019

Primeiro polo de economia criativa da Capital, o 4º Distrito se tornou a “menina dos olhos” de empreendedores locais interessados em implementar negócios com potencial cultural, turístico, gastronômico ou tecnológico. Enquanto a academia e o poder público se desdobram em estudos com foco na revitalização da região, mais de 100 pequenas e médias empresas fomentam in loco a economia daquele território, atraindo cada vez mais moradores de outros bairros da cidade.
Encabeçados por profissionais de audiovisual, gastronomia, arquitetura, hotelaria, artesanato, moda, fotografia, produção fonográfica, design, comunicação digital e desenvolvimento de softwares, empreendimentos inovadores surgiram na última década ocupando galpões desativados, que foram repaginados e hoje são atração à parte dos negócios que abrigam.
Em meio a pequenos comércios tradicionais, como padarias e farmácias, o polo criativo encarou o desafio de se estabelecer em quadras com ar de abandono e cercadas da prostituição de rua dos arredores da avenida Farrapos. Até hoje, a iluminação precária e as calçadas depredadas da maioria das ruas do entorno ainda intimidam quem quer transitar a pé durante a noite. Mas a junção de empresas permitiu que diversos grupos passassem a trabalhar em prol da revitalização dos bairros que formam o polígono histórico, e que carece de infraestrutura em todos os sentidos.
A área – que forma uma faixa que faz limite com o Centro Histórico, passa ao lado do bairro Moinhos de Vento e vai até a Fronteira Noroeste da cidade, onde fica a Arena do Grêmio – foi uma pujante zona industrial até meados de 1970. Com a saída da maior parte das empresas para outras cidades da Região Metropolitana e do Estado, o espaço começou a se degradar – uma vez que também conta com baixa densidade habitacional. Isso explica porque até pouco tempo atrás a maioria dos porto-alegrenses sequer cogitava vida noturna nos bairros Floresta, São Geraldo, Navegantes, Humaitá e Farrapos.
A mudança veio com as novas iniciativas que têm dado vida à região, acompanhadas do advento dos aplicativos de transporte. Atualmente, passou a ser “cool” ir a festas, eventos e outras atividades culturais promovidas pelos pubs que chegaram ao 4º Distrito, uma vez que embarcar ou desembarcar na frente de uma das cervejarias ou casas de shows que se estabeleceram por lá passou a ser tão seguro quanto ir a um local semelhante no Moinhos de Vento ou na Cidade Baixa.

Setor do audiovisual desbravou a região nas últimas décadas

Marcelo Nunes, sócio da Bandits Films, lembra que algumas pessoas 
nem queriam ir ao estúdio no bairro Floresta por medo da vizinhança

Marcelo Nunes, sócio da Bandits Films, lembra que algumas pessoas nem queriam ir ao estúdio no bairro Floresta por medo da vizinhança

/BANDITS FILMS/DIVULGAÇÃO/JC

Há pouco mais de três anos, frequentadores de outros bairros começaram a migrar para o 4º Distrito, acompanhando a programação de bares como Gravador Pub, Agulha, Oculto e Fuga, entre outros. Algumas empresas do ramo inclusive já estão com mais de um negócio estabelecido na região, tamanho o sucesso das empreitadas, que encantam pelo estilo nas decorações, características intimistas dos recantos e oferta de boa música.
Mas foram os representantes da indústria do audiovisual que desbravaram o 4º Distrito, mais de uma década antes dos empresários da noite se darem conta do potencial da região. É o caso dos sócios da produtora de moda Bandits Films, que compraram um galpão na rua Almirante Tamandaré (bairro Floresta), há 17 anos. O olhar vanguardista do trio de artistas enfrentou no início, além da precariedade de infraestrutura urbanística, também as mazelas de problemas sociais, existentes nas proximidades da avenida Voluntários da Pátria, desde a Rodoviária até o DC Navegantes.
Especializado no mercado publicitário e cinematográfico (fashion films), um dos proprietários, o diretor de fotografia Marcelo Nunes, conta que, naquela época, “tinha gente que nem queria ir” até o estúdio. “Era mesmo meio inviável, tinha uma cracolândia ali perto, mas a área começou a ser revitalizada graças à ação de empresários do entorno”, afirma Nunes.
O sócio da Bandits destaca algumas vantagens e desvantagens de ocupar a região. “Poder público nunca esteve muito presente, nem para tratar os esgotos, que seria o básico”, observa Nunes. Ele avalia que a relação custo-benefício na locação de um grande espaço por preços razoáveis possibilita que muitas ideias sejam executadas de forma inovadora. Nunes opina que a chegada de bares como o Gravador Pub e o Agulha foi elemento determinante para que um novo público passasse a circular pela região. “Mas ainda tem muita coisa para melhorar, desde as ruas, que continuam sujas, até a iluminação, que é praticamente zero”, reforça. “Nos últimos seis meses, a prefeitura está um pouco mais atuante, recentemente mudaram os encanamentos, que eram tão antigos que a água chegava amarela nas torneiras.”

Território apresenta várias possibilidades de negócios

O poder público passou a reconhecer a necessidade de resgatar a importância do 4º Distrito em 2015, quando a Câmara Municipal de Porto Alegre aprovou uma lei complementar do Executivo, que concede isenção de IPTU a imóveis utilizados por empresas de base tecnológica nos bairros que compõem a região. A partir daí, empreendedores também podem solicitar isenção do Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) caso queiram implementar negócios em um dos bairros do polígono.
No entanto, ainda faltam mais ações efetivas no que se refere à revitalização da infraestrutura, a exemplo de limpeza de praças, conserto de calçadas, tratamento de esgotos, resolução dos alagamentos em dias de chuva, melhoria na iluminação, entre outras iniciativas que melhorem o passeio público. Algumas mudanças já ocorreram, mas ainda são incipientes.
“Por termos pesquisas e análises diferentes, que ajudam a demonstrar a complexidade do 4º Distrito, a prefeitura de Porto Alegre conseguiu o apoio do Banco Mundial para realizarmos um plano de investimento estruturado para a região”, comenta o coordenador de Resiliência da Secretaria Municipal de Relações Institucionais (SMRI), Rodrigo Corradi. Ele se refere a recursos na casa dos US$ 30 milhões com foco no desenvolvimento do polígono – iniciativa que, a princípio, passaria por investimentos em mobilidade urbana e melhorias na infraestrutura, além de contenção de alagamentos.
“O plano deve ser fruto de um trabalho de análise do que já foi produzido, contando com muito levantamento de dados primários. Nesse sentido, teremos, no final deste ano, a entrega dos estudos feitos pelo Banco Mundial, que ajudarão na tomada de decisão”, pondera Corradi. Enquanto isso não acontece, a comunidade de moradores e empreendedores do 4º Distrito vai fazendo sua parte.
“O problema dos alagamentos é consequência de uma urbanização que foi realizada em terreno impróprio, pois toda aquela região – principalmente o bairro Floresta – era formada por banhados”, observa o professor Jorge Piqué, fundador da Agência UrbsNova, de design social e inovação. Em 2013, ele criou o polo Distrito Criativo de Porto Alegre. “Em geral, é um grupo formado por artistas e pequenos e médios empreendedores de economia criativa, conhecimento e experiência”, resume Piqué.
Somando cerca de 100 participantes, concentrados em uma área de aproximadamente 250 hectares, perto do Centro Histórico de Porto Alegre, o grupo denominado Distrito C – formado por proprietários de ateliês, galerias de arte, restaurantes, bares, e espaços multifuncionais, em geral colaborativos – tem realizado uma série de ações concretas para fomentar a região. Exemplo disso é o complexo Vila Flores, que abriga 33 iniciativas de artistas, coletivos criativos, empresas de tecnologia, escritório de arquitetura, entre outros projetos, como uma escola para crianças, que ocupam três prédios históricos (datados de 1925 e 1928).
Lá também ocorrem eventos culturais e reuniões de grupos que têm discutido o futuro do 4º Distrito, a exemplo de discussões do Master Plan e do projeto 100 Cidades Resilientes, coordenados pela prefeitura de Porto Alegre e pela Fundação Rockefeller, respectivamente.

Impacto social na população de baixa renda exige atenção

João Wallig Neto, do Vila Flores, alerta para processo de gentrificação da área

João Wallig Neto, do Vila Flores, alerta para processo de gentrificação da área

/MARIANA CARLESSO/ARQUIVO/JC

O coordenador e mentor da Associação Cultural Vila Flores, João Wallig, destaca que, além de infraestrutura básica, e região carece de investimentos com impacto social e que evitem a gentrificação (valorização imobiliária que afeta população de baixa renda). “Não se trata de assistencialismo, mas é muito importante resolver a questão social antes de qualquer revitalização, uma vez que já existe uma economia pujante na área.”
Wallig se refere às quase 300 famílias que ocupam a Vila dos Papeleiros, em casas construídas pelo Minha Casa Minha Vida, na Voluntários da Pátria. Primeira via a ser ocupada no 4º Distrito, no início do século passado, a rua tem poucas referências em projetos atuais de revitalização para o polígono de bairros.
“A vila perto da rodoviária é problema social. Ali tem muito comércio irregular de sucatas, e é preciso dar atenção a isso”, opina o proprietário do Antiquário Mundaréo, Rodrigo Sandri. Ex-diretor de Operação e Produção da Opus, o empresário transformou sua coleção de antiguidades em negócio e se estabeleceu, há dois anos, em um pavilhão de 500 metros quadrados no bairro Floresta. “O conceito é trabalhar com peças de reuso, além de valorizar a história e a beleza dos objetos e do mobiliário”, explica Sandri. Ele compartilha o espaço com o Instituto Pacífico, de desenvolvimento humano, que oferece cursos de mindfulness, runas e yoga. “Estar no 4º Distrito me dá a possibilidade de me conectar com pessoas da indústria da criatividade, que é muito forte por lá.”
A assessora de Resiliência da Secretaria Municipal de Relações Institucionais e Articulação Política (SMRI), Marcela Ávila, comenta que o atual estudo da prefeitura (com a assistência técnica do Banco Mundial) resultará em um plano estratégico com ações de “curtíssimo” prazo para alavancar o desenvolvimento sustentável do 4º Distrito. “Tem sido um projeto muito esclarecedor no sentido de que se percebe diferenças entre o que a população demanda e o que o poder público entendia como necessário até então.”
Ao contrário do que a prefeitura havia elencado como prioridade número um, a solução para os alagamentos em dias de chuva é considerada menos importante do que a questão social, confirma Marcela. “Quando viemos para o território, as conversas apontaram (a urgência de) investimento na construção de abrigos para pessoas em situação de vulnerabilidade social, o que está influenciando no realinhamento das prioridades”, confirma Marcela. “Com certeza, existem demandas de infraestrutura cinza, principalmente vinculadas às inundações, mas fato é que também é necessário considerar outras questões, como ampliar o atendimento do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) à população de rua, por exemplo”, adianta.
Fundador do Instituto Pacífico, o professor de mindfulness Felipe Rech chegou há dois anos ao 4º Distrito. “A decisão foi bem pensada. É uma parte central, urbana e com característica de um lugar que está se desenvolvendo. Participar desse movimento de expansão me chamou a atenção”, comenta. Rech observa que o apelo geográfico é positivo. “É uma área plana, muito fácil de se deslocar a pé.” Para ele, os negócios que estão surgindo na região são atividades que vão de encontro a uma maior consciência social. “Em todos, é possível ver a preocupação com um propósito do que eles estão oferecendo e de fazer o negócio acontecer da melhor forma possível, considerando sustentabilidade, criatividade, colaboração, e processo coletivo.”

Iniciativas pioneiras impulsionaram o desenvolvimento dos quarteirões

Inaugurado em 2011, hostel localizado na esquina das ruas São Carlos e Gaspar Martins tem uma taxa média de ocupação mensal de 47%

Inaugurado em 2011, hostel localizado na esquina das ruas São Carlos e Gaspar Martins tem uma taxa média de ocupação mensal de 47%

/MARIANA CARLESSO/ARQUIVO/JC

Um dos empreendimentos mais antigos da nova safra de negócios que chegou ao 4º Distrito foi o Porto Alegre Hostel Boutique. Inaugurada em 2011, a hospedagem está localizada em um casarão na rua São Carlos esquina com a Gaspar Martins, nas proximidades do Shopping Total. Segundo o sócio-proprietário, Paulo Ramires, a taxa de ocupação mensal varia entre 45% e 47%. “Sempre tem movimento. Dependendo da época do ano, inclusive, recebemos muitos grupos, e alguns estrangeiros.”
O simples fato da chegada do hostel já aumentou a visibilidade da região. Mas Ramires destaca que foi após a implementação do Distrito Criativo que se formou um movimento de crescimento do 4º Distrito do ponto de vista humano. “Estes novos empreendimentos fomentam os demais do entorno e têm atraído muita gente para cá.”
Unindo arte e tecnologia, a Fábrica do Futuro é um dos exemplos no que se refere à inovação de um ponto de negócios. Ao mesmo tempo que reúne mostras de obras do Museu de Arte Contemporânea, o térreo compõe um ambiente de coworking repleto de mesas com rodinhas, que podem ser fechadas para dar espaço a um pavilhão de eventos. Ali ocorrem desde shows até desfile de moda, segundo o diretor do empreendimento, Francisco Hauck.
“A ideia é oferecer vários lugares inspiradores onde as pessoas possam interagir”, explica Hauck, destacando que, em breve, haverá também uma operação de “comidinhas boas e baratas para os habitantes” que locam o espaço. Contando com diversas atividades simultâneas, o prédio funciona em sinergia com outros negócios do 4º Distrito, comenta o diretor.
Além de salas amplas de trabalho, auditório, duas salas de aula e jardim de inverno, a Fábrica do Futuro tem cafeteria, espaço para jogos, espaço zen e um estúdio de música (o Áudio Porto) – este com mais de 100 m², capaz de comportar uma orquestra inteira, e onde se pode gravar, inclusive, trilhas de cinema e de jogos. “É o maior estúdio de som da América Latina e tem atraído, inclusive, artistas de outros estados e países”, destaca Hauck.

Arquitetura preservada é atração

Projeto Porto Capital será erguido atrás do Hospital da Criança, antigo edifício que terá a fachada mantida

Projeto Porto Capital será erguido atrás do Hospital da Criança, antigo edifício que terá a fachada mantida

/R. CORREA ENGENHARIA/DIVULGAÇÃO/JC

O mercado imobiliário também está de olho no 4º Distrito. Com obras previstas para o segundo semestre de 2020, um dos empreendimentos que promete fomentar negócios do setor é o Porto Capital, que prevê a construção de torres comerciais e residenciais no terreno do Antigo Hospital da Criança Santo Antônio.
O imóvel foi adquirido em setembro de 2013, e o projeto está em fase de estruturação para cumprir exigências da prefeitura e da Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural (EPHAC), uma vez que a fachada do prédio é tombada pelo município.
“O grande potencial construtivo do terreno, assim como da região do 4º Distrito, ocorre devido ao desenvolvimento, tanto econômico como cultural da região, com grandes projetos para um futuro próximo que estão recebendo muitos incentivos para a revitalização, inclusive de imóveis tombados, tão representativos para a comunidade”, comenta o diretor da construtora R. Correa Engenharia, Paulo José Rockenbach. “Alia-se a esses fatos a localização privilegiada, próxima do aeroporto e de bairros e zonas comerciais importantes.”
De acordo com o engenheiro, serão preservados o edifício principal do hospital voltado para avenida Ceará, a capela, e o edifício da esquina com a Ernesto da Fontoura. O prédio principal abrigará lojas no térreo e apartamentos loft nos demais andares (do segundo ao quarto), com apartamentos duplex no último andar. Já o da esquina será ocupado por lojas no térreo e salas comerciais nos demais andares (segundo e terceiro). A capela também será um ponto comercial.
“Para esta obra ainda não há nenhum incentivo do poder público definido por estarmos no processo de aprovação do projeto. Mas, para a região, há um grande planejamento de revitalização urbana e reconversão econômica através de algumas iniciativas do Masterplan”, observa Rockenbach. “Com a recém-aprovada Lei do Patrimônio, esperamos conseguir alguns incentivos, como potencial construtivo adicional e algumas flexibilizações do Plano Diretor.”

Passeios impulsionam turismo pelo roteiro das cervejarias artesanais

Rafael Diefenthaler, da 4Beer, informa que o movimento, nos fins de semana, tem sido crescente

Rafael Diefenthaler, da 4Beer, informa que o movimento, nos fins de semana, tem sido crescente

FREDY VIEIRA/JC/FREDY VIEIRA/ARQUIVO/JC

Para se ter ideia da quantidade de atrativos do 4º Distrito, é muito comum que grupos de pessoas realizem visita guiada pela região, comenta o fundador da Agência UrbsNova, Jorge Piqué. “Tem tanta coisa para mostrar que nem tem como listar”, diz ele.
Mais que polo criativo, a região também é polo cervejeiro, contando com, pelo menos, 10 microcervejarias que, desde 2017, participam de projetos ligados ao turismo.
O objetivo é que o público circule entre as fábricas de cerveja artesanal atuantes no polígono, conhecendo os diferenciais de cada uma. Durante o passeio, os mestres cervejeiros de cada local visitado passam informações ao público sobre a produção e características da bebida fabricada.
“Achei muito legal a ideia de conhecer os pontos turísticos de Porto Alegre, saber da história dos lugares, e ainda beber uma cervejinha gelada”, comentou o administrador de empresas Leonardo Lima de Oliveira, que esteve em um dos passeios da Linha Turismo da prefeitura, quando chegou do Ceará há dois anos para vir morar na Capital. “Temos bastante movimento também durante os fins de semana”, diz o proprietário da 4Beer – Cerveja e Cultura, Rafael Diefenthaler.
Um dos projetos da iniciativa Pacto Alegre é voltado para o 4º Distrito. “Hoje, tem muitos bares na região, que é um pouco descuidada, e falta segurança para as pessoas circularem”, aponta o vice-presidente do Sindicato de Hospedagem e Alimentação de Porto Alegre e Região (Sindha), Sandro Zanette. “Acreditamos que esse tipo de projeto vai ajudar no desenvolvimento dos bairros envolvidos, o que irá fortalecer também o mercado imobiliário local.”

 

 

Adriana Lampert para JC em 09.12.2019

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