TRECHO EXTRAÍDO DA ENTREVISTA COM NILTON BONDER

Fonte: Com a Palavra – ZH

Nilton Bonder é escritor e líder espiritual da Congregação Judaica do Brasil.

As pessoas esperam que um líder religioso tenha respostas para todos os problemas. Que respostas o senhor ainda não descobriu?
Praticamente todas (risos). Às vezes, as pessoas não vão ao rabino, ao terapeuta ou ao amigo em busca de uma resposta. Vivemos em um mundo onde todos temos acesso à informação, temos acesso a profissionais de toda ordem. Ninguém detém uma hegemonia sobre as respostas. A maioria das pessoas tem acesso e é inteligente o suficiente para chegar à mesma conclusão que eu. A única coisa que posso fazer a mais é me valer de uma tradição sapiencial que existe atrás de mim. Tenho 60 anos, li a vida até o capítulo 6, digamos assim. Não li o 7, o 8 e o 9, que constituem a longevidade possível hoje. A tradição é o acúmulo de pensamento, de sabedoria daqueles que leram o livro centenas de vezes. Tenho isso à disposição, mas o mais importante é que a maioria das pessoas não busca uma resposta. Elas buscam a escuta. Quando às vezes alguém me liga num momento muito difícil ou, Deus o livre, diante de uma tragédia, preciso entender o que essa pessoa quer, entender que ela não está pedindo para eu explicar por que o carro bateu. Ela está pedindo para eu escutá-la, para eu reconhecer que o problema dela é muito difícil. Quando alguém traz uma questão dessas, a maioria das pessoas tende a dizer: “Não é tão ruim, pelo menos você ainda tem isso e aquilo”. Ou seja, tenta relativizar o problema das pessoas. Isso não é uma escuta, não consola uma pessoa. O que consola é o reconhecimento. Às vezes, basta dizer: “É muito difícil mesmo. Que difícil o que você está vivendo”. E estar presente, acolhendo o problema dela, em vez de rejeitar e tentar minimizar o problema. Muitas vezes, a resposta não está em uma solução. Está na capacidade de ir para dentro do enunciado do problema.

Houve algum momento em que o senhor duvidou da existência de Deus?
Sou de uma tradição que diz que Deus não existe (no sentido material), que não se apresenta sob nenhuma forma. Então, quando dizem que Deus não existe, Ele não existe neste sentido: não consigo ver, escutar, tocar, ter uma experiência direta com Ele nos sentidos humanos. O trabalho espiritual do ser humano é refinar sua sensibilidade para encontrar um Deus que é vivo, mas que não existe. No coração da Bíblia, quando Deus se apresenta, Ele diz: “Não tenho forma, não me representem por nada. Portanto, não existo na dimensão material. Existo como a fonte viva de tudo que se manifesta e existe no mundo”. Como todas as pessoas, também tenho de ficar lutando contra os meus sentidos, que constantemente me dizem: “Não existe”. Mas a minha sensibilidade diz: “Ele é vivo, é a fonte de tudo que é vivo”. Essa espiritualidade é sempre uma prática. Ninguém tem essa certeza (de que Deus existe), a não ser em um lugar dogmático, que em muitos sentidos é perigoso. Nem é esperado que alguém tenha essa certeza. A fé é uma construção pela vida, e a dúvida é fundamental para a fé.

Hoje, vemos muito o uso da religião por políticos e pessoas em situação de poder. Como as pessoas podem se vacinar contra isso?
Isso sempre existiu. A religião sempre foi uma área de poder. Há cem ou 200 anos, o dono do jornal, da TV, do Facebook era a religião, que se espalhou como uma organização. Ela tinha a palavra e, com ela, mandava a mensagem que queria. Sempre foi uma área fundamental do poder, do uso da informação. Dito isso, hoje estamos em um lugar muito melhor do que jamais estivemos. A religião sempre foi mais manipulada, era associada ao Estado, era um braço do poder, das elites. Ainda é, mas talvez menos do que no passado. Progredimos. Existem muitas áreas da religião que são progressistas, que questionam a própria religião. As religiões perderam essa autoridade de impedir o dissidente. Então, as vozes são múltiplas. Apesar de continuarmos tendo manipulação. Temos visto a religião islâmica ficar refém de indivíduos que a interpretam de maneira incorreta. Vemos também certas igrejas no Brasil que são intolerantes e querem se fortalecer em oposição a outras manifestações legítimas de religiosidade. São fenômenos deploráveis, mas essa era a norma no mundo das religiões até muito pouco tempo atrás. Hoje, são as exceções. E são muito mais identificáveis do que no passado.

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