Quando a casa é extensão do trabalho: por que você não deveria fazer isso 14.02.20

Que a tecnologia transformou o mundo corporativo, tornando tudo mais prático, isso você já sabe e ninguém duvida. Mas o fato de ter e-mail à mão a qualquer hora do dia, WhatsApp para se comunicar com gente de todo o mundo e intranet para acessar o sistema da empresa a qualquer momento e lugar, tem feito as pessoas trabalharem (quase) 24 horas por dia.

“Estas facilidades foram muito comemoradas porque as pessoas achavam que iriam trabalhar menos, mas ocorreu o contrário. Os meios de executar as tarefas já não exigem que os trabalhadores estejam na empresa. Então, a casa vira uma extensão do trabalho”, aponta o médico João Silvestre da Silva-Júnior, membro da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), de São Paulo.

Não são poucos os profissionais que estão passando por essa situação. Uma pesquisa realizada pela Consultoria Talenses, especialista em recrutamento executivo, mostrou que 55% dos trabalhadores reclamam da carga horária excessiva.

Ou seja, trabalham mais, muitas vezes assumindo funções de outros funcionários que foram desligados e aumentando sua responsabilidade corporativa – estar em casa significa uma continuação das funções acumuladas.

Descanso e lazer

A legislação trabalhista no Brasil prevê jornada de 44 horas semanais. Isso para que todos tenham algumas horas por dia para se desligar do estresse e descansar a mente. A ideia é trabalhar oito horas, descansar oito e ter outras oito horas de lazer.

“Mas já sabemos que, na prática, isto não funciona. Hoje as pessoas levam horas só para chegar ao trabalho por conta do trânsito. E ainda existe o serviço da casa. Então, as horas de sono e lazer vão sendo consumidas”, diz o médico da ANAMT.

Para completar, o acesso à tecnologia torna essas poucas horas ainda mais raras. E outra: o trabalho remoto não é contado pela empresa como hora extra. Ou seja, você não é remunerado por isso.

Estresse permanente

Se o trabalho já tende a ser cansativo durante as oito horas do dia, imagina quando se estende aos momentos de descanso? Daí aparecem as doenças ligadas ao estresse crônico, como transtornos de ansiedade, depressão, pressão alta, infarto e até derrame.

Também é possível que surjam outros incômodos que, num primeiro momento, o trabalhador nem se dê conta de que a causa é o excesso de trabalho. Neste contexto, podem ser incluídas doenças na coluna e dores pelo corpo.

Isso sem contar a sensação de que não está sendo um bom trabalhador, caso não responda imediatamente à mensagem que chegou.

“Esse comportamento causa ansiedade e sensação de que é improdutivo e será avaliado negativamente ou, até mesmo, que seu emprego fique em risco”, conta Valerya Carvalho, cofundadora da Escola Sentido, de São Paulo, especialista em métodos para o desenvolvimento do potencial criativo e inovador das pessoas.

Busca pelo equilíbrio

Resolver tal questão depende de uma mudança na postura do trabalhador e uma reestruturação na empresa.

“Há pessoas que têm um excesso de comprometimento. Elas se doam demais para aquilo que estão fazendo. Então, quando veem que chegou um e-mail, simplesmente não conseguem ficar sem respondê-lo. Não importa o dia ou horário”, observa o médico João Silvestre.

Necessidade de limites

Para Alexandre Benedetti, diretor da operação São Paulo da Talenses, o funcionário precisa impor limites em relação às demandas do gestor como, por exemplo, as que são feitas fora do horário de trabalho ou nos fins de semana.

Por outro lado, as empresas devem se reestruturar para que a carga de trabalho seja cumprida dentro do horário do expediente. “É importante que o RH e o gestor estejam atentos às áreas com acúmulo de funções e ofereça amortecedores para esses profissionais”, salienta Alexandre.

De acordo com ele, home office e flexibilidade de horário podem melhorar a qualidade de vida profissional. “Mas o uso de e-mails e WhatsApp precisa ser controlado para que não atrapalhe a vida pessoal dos profissionais”, aponta Alexandre.

Abstinência real

É claro que não é tão simples assim. Valerya Carvalho, da Escola Sentido, explica que, num primeiro momento, até uma espécie de crise de abstinência pode acontecer quando se deixa o celular desligado ao sair do trabalho.

“A empresa tem um papel fundamental neste processo de educação da comunicação corporativa, incorporando o comportamento de não incentivar o excesso de trabalho após o expediente. Se houver esse tipo de ação, com certeza os trabalhadores se sentirão fortalecidos”, diz.

Na França, isso já existe. Desde 2017 a lei da desconexão garante ao trabalhador o direito de não estar conectado fora do horário de trabalho.

Ele não pode ser punido ou prejudicado se um email não for respondido, por exemplo, ou se deixar o celular desligado. O objetivo é assegurar que todo trabalhador tenha direito ao descanso e às horas de lazer com a família.

 

Silvia Regina Sousa – Colaboração para Universa – 10/02/2020

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