VALORIZAR NEGÓCIOS LOCAIS PARA ENFRENTAR A CRISE – 03.04.2020

As perdas no Produto Interno Bruto do mundo são uma certeza para 2020. Se os resultados econômicos empatarem com o ano passado já será uma vitória. Essa análise global evoca na sociedade um novo comportamento.

Conhecer o que as localidades oferecem e valorizar o trabalho feito dentro de cada microrregião. Como resultado, sabe-se a procedência e gera menos gastos com transportes. É o que afirma o professor de Economia da Univates, especialista em Logística, Samuel Martim de Conto.

A partir dessa postura, é possível diminuir as perdas no PIB regional frente ao surto de coronavírus, afirma o consultor empresarial, Fernando Röhsig. Em comentário ontem no programa Frente e Verso, da Rádio A Hora 102.9, afirmou que ampliar o leque de produtos da região nos mercados e nas casas é uma forma de fazer o dinheiro circular na região. “Temos uma oportunidade. Estamos no Vale dos Alimentos. Temos a condição de priorizar produtos daqui.”

Na avaliação de Röhsig, as mudanças provocadas pelo coronavírus também trazem um propósito às comunidades, algo muito próximo do conceito de “capitalismo consciente”.

Na estimativa do consultor, as perdas em termos de PIB no Vale do Taquari devem se aproximar dos R$ 300 milhões. Só para Lajeado, calcula prejuízo na movimentação financeira próxima dos R$ 100 milhões.

As restrições às atividades econômicas no Vale do Taquari começaram na segunda-feira passada. Algumas cidades, como Encantado, já teve parte dos estabelecimentos liberada para voltar ao trabalho. Em Lajeado, uma reunião na manhã de hoje pode trazer modificações no decreto municipal.

Reaprender frente à crise

Para a presidente da Câmara da Indústria, Comércio e Serviço de Estrela (Cacis), Andréa Zwirtes, tempos de crise são um momento para as pessoas reaprenderem, em especial no que diz respeito às finanças pessoais.
Na opinião dela, para tornar a região mais forte é preciso engajamento social. “Estar preparado para identificar e atender essas novas demandas fará toda a diferença para nosso Vale.”

Com as mudanças forçadas pelo coronavírus, a presidente da Cacis afirma: “Precisamos buscar mudanças positivas, que construam uma sociedade mais humana, mais fraterna e unida. Nunca se falou tanto em cuidar de si para proteger o próximo.” Isso deve ser transferido para a relação das comunidades com os negócios, finaliza.

Organização regional

Na avaliação do presidente da Câmara da Indústria e Comércio do Vale do Taquari (CIC-VT), Ivandro Rosa, as empresas e as famílias foram pegas de surpresa por uma mudança drástica. “Não sabemos como isso vai terminar.”
Para ele, essa experiência mostra a importância das instituições regionais, como as câmaras, sindicatos, cooperativas, associações e empresas comprometidas com o Vale. “Tornar a região forte também parte de reconhecer quem está ao nosso lado. Agora neste momento se percebe o quanto essas representações estão comprometidas com a solução dos problemas locais.”

Olhar para o campo

Além da pandemia, a agricultura familiar do Vale enfrenta uma das estiagens mais severas dos últimos anos. A produção de milho, leite, hortifrutigranjeiros está comprometida. Há um aumento da demanda, mas o agricultor familiar não pode oferecer o produto em função da falta de chuva, diz o coordenador da regional do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Marcos Hinrichsen.

De acordo com ele, os produtores se organizam para manter a venda de alimentos frescos, com mais proximidade dos supermercados, por meio de aplicativos de comunicação e das feiras dos produtores.
“Sempre fui a favor de valorizar o que temos aqui. Isso faz a economia girar, abre postos de trabalho e traz receita aos municípios.”

“As pessoas estão cooperando, se ajudando, e isso é essencial”

Um episódio inédito no mundo. Assim o professor de Economia Samuel de Conto avalia o impacto da pandemia do Covid-19. Para ele, fazer o dinheiro local circular entre empresas, serviços e instituições da região é uma forma de garantir menos impactos da recessão no Vale do Taquari.

A Hora – Estimam-se perdas significativas no faturamento das empresas nos próximos meses, junto com aumento do desemprego e fechamentos de negócios. Frente a esse cenário, como reduzir o impacto da pandemia na economia regional?
Samuel Martim de Conto – É uma situação muito complexa. Jamais ocorreu algo semelhante. Muitos falam que se aproxima da crise de 1929 e da 2018, mas essas tiveram motivos financeiros e não de saúde como agora. Acredito que deva haver um equilíbrio, pois a “dose do remédio não pode matar o paciente se for receitada em excesso.” Então, as medidas adotadas até então pelos governantes, de liberar aquelas atividades mais essenciais, e segurar as atividades com grandes aglomerações, penso serem as mais adequadas. Além disso, os auxílios financeiros do Governo Federal anunciados semana passada, tendem a amenizar a situação dos pequenos negócios.

Como o consumo local, o comportamento da população, pode reduzir essas perdas?
Conto – Estava ouvindo hoje pela manhã a Rádio A Hora. Concordo com um dos convidados (Fernando Röhsig) de que a população regional deveria dar preferência aos produtos do Vale do Taquari. Dessa forma, não há grandes deslocamentos logísticos, uma parte das atividades produtivas e econômicas ficam funcionando, evitando um colapso econômico e social logo ali na frente.

Na sua análise, quais setores sentirão mais esse momento conturbado?
Conto – Ainda não temos condições de avaliar os impactos nos setores. Mas em se tratando de estruturas de organizações, acredito que as micro e pequenas terão mais dificuldades neste momento. As médias e grandes possuem estrutura que conseguem suportar, embora com ajustes no quadro de pessoal.

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