ENTREVISTA COM BONI – 30.04.2020

Considerado o pai da Globo e o mais importante executivo da história da televisão brasileira, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, 84, está desde 1998 longe da emissora.

Confira a entrevista exclusiva de Boni:

A Globo está fazendo 55 anos, e olhando lá para atrás, o que o senhor faria diferente?

Eu estou há 22 anos fora da Globo. Passei lá 31 anos. Não mudaria nada do que nós fizemos de 1967 a 1998. Eu, Walter Clark, Joe Wallach, Daniel Filho, Borjalo, Armando Nogueira, Adilson Pontes Malta, Magaldi, Max Nunes, Haroldo Barbosa, Dias Gomes, Janet Clair, Silvio de Abreu, Gilberto Braga, Manoel Carlos, Aguinaldo Silva, Benedito Rui Barbosa, Walter Avancini, Mario Lucio Vaz, Augusto César Vanucci, os irmão Renato e Edwaldo Pacote, Luiz Guimarães e um mundo de artistas como Fernanda Montenegro, Regina Duarte, Gloria Menezes, Tarcisio Meira, Dercy Gonçalves, Lima Duarte, Tony Ramos, Eva Wilma, Ney Latorraca, Jardel Filho, Sergio Cardoso, Paulo Gracindo, Ary Fontoura, Miguel Falabella, Aracy Balabanian, Raul Cortez, Glória Pires, Antônio Fagundes, Juca de Oliveira, Luiz Gustavo, Jô Soares, Chico Anysio, Renato Aragão, Chacrinha e Faustão. No jornalismo Hilton Gomes, Cid Moreira, Heron Domingues, Helio Costa, Sérgio Chapelin, Lucas Mendes e Paulo Francis.

Gastaríamos páginas e páginas para citar tanta gente boa e que lutou para tirar a Globo da posição de quarta emissora do Rio e quinta colocada em São Paulo, transformando a emissora em uma das maiores redes de televisão do mundo. Muita coisa boa foi feita depois da minha saída, mas nós éramos mais impacientes e muito menos conservadores.

O senhor acha que a TV aberta está com os dias contados? 

Jamais. Televisão é imprescindível no conjunto de veículos de comunicação. É o mais confiável dos meios. Recentemente, na crise do coronavírus, pesquisa do Datafolha aponta a televisão como meio de maior credibilidade. Vai existir um convívio tranquilo entre a televisão aberta e os exibidores de enlatados que não substituem a televisão, mas as extintas locadoras de vídeo. Enquanto houver só notícia para ser dada, um acontecimento ao vivo, programas de conteúdo atualizados diariamente a televisão aberta estará viva.

Qual é o futuro da Globo como TV aberta?

A Globo está preparada para isso como grande produtora de conteúdo que é. O conteúdo é que decide e faz a diferença. A Globo está estruturada para operar nas duas pontas, a televisão ao vivo e o conteúdo enlatado.

Como o senhor vê a flexibilidade da Globo em citar o nome de outras emissoras, coisa que no passado era impossível?

Nunca houve veto a citação de outras emissoras ou outros órgãos de imprensa. Os jornais e revistas sempre foram citados. O que era proibido era citar programas ou artistas da linha de entretenimento para evitar promovê-los. Também só cedíamos artistas em casos excepcionais e, por outro lado, artistas de outras emissoras não podiam ser convidados. Uma estratégia necessária para a Globo que estava entrando no mercado e tinha que conquistar o seu lugar. O jornalismo estava liberado. Um exemplo é a Formula 1 que quando estava na Bandeirantes era citada sempre que recebíamos cortesia de imagens. E também nos gols da rodada ou outros eventos quando outra emissora cedia imagens. Hoje, líder absoluta, a Globo pode liberar tudo que não faz diferença.

Qual foi o maior orgulho do senhor, o legado que senhor deixa para a Globo?

A própria Globo. Ela não existia. Nós inventamos a Globo no momento em que ela estava à beira da falência e em litígio com o Time-Life.

O que o senhor assiste na televisão?

Assisto. Não tudo é claro. Mas vejo para me manter atualizado.

O que acha das plataformas de streaming?

O streaming não pode ser visto apenas como um mero distribuidor de filmes e séries. Quando eu falo na televisão aberta, que hoje é distribuída pelo ar ou assinatura via cabo, eu não descarto que amanhã a distribuição de televisão, mesmo gratuita, não possa migrar para o streaming e nem precisar de concessão do Governo, uma vez que não utilizaria espectro. Mas isso é apenas uma especulação. A tecnologia avança em uma velocidade tal que é impossível fazer previsões. Com a chegada do 5G – a internet das coisas – muita coisa vai mudar. Não sabemos onde vai parar. Mas vou insistir: a única coisa que continuará realmente tendo importância será o CONTEÚDO.

Por que a Globo não tem concorrentes e que elementos uma emissora precisaria para fazer concorrência com a Globo?

Vamos dividir a pergunta em duas respostas. A Globo não tem concorrência porque, na prática, os concorrentes não existem. Para fazer concorrência a Globo é preciso fazer o que a Globo fez: contratar gente do ramo, profissionais experientes e de comprovado sucesso. Eles teriam que montar um novo modelo de fazer televisão como a Globo fez naquela época.

O senhor continua trabalhando e muito na Vanguarda. Não pensa em ampliar sua emissora ou dirigir um canal maior?

A Vanguarda é uma diversão. É a emissora mais bonita do Brasil, tem um jornalismo extraordinário e uma audiência maior que todas as concorrentes somadas. Mas Vanguarda é uma pequena empresa que é afiliada da Globo, tendo seu território de operação limitado. Eu estou em forma. Se aparecer algum projeto inovador estou dentro.
O seu contrato com o SBT foi só de um dia? O que aconteceu? Aceitaria um novo convite?

O Silvio arrependeu-se. E eu não iria trabalhar com um arrependido. Desfizemos numa boa.

O senhor continua controlando todas as ações dentro da Vanguarda?

Temos uma equipe que nos dá a maior satisfação. Mais mesmo que nos áureos tempos da Globo. Eles é que tocam. Eu dou palpite.

Uma vez, durante uma entrevista, o senhor disse que colocaria seu filho, Boninho, como executivo mor da Globo? Ainda pensa assim e por quê?

Eu usei meu filho como exemplo. Competente, dedicado e criativo. Se eu me metesse em alguma coisa chamaria profissionais com esse perfil.

 

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