A QUARTA REVOLUÇÃO E O DESAFIO DA COLABORAÇÃO EM PROL DO COLETIVO – 23.10.2020

Desde o século XVIII a humanidade já passou por três revoluções industriais:

– a primeira chamada de Era da Mecanização, quando surgiu a máquina a vapor e a energia hidráulica

– a segunda chamada de Era da Eletricidade, com a produção em massa e as linhas de montagem

– a terceira foi a Era da Computação, quando houve grande desenvolvimento tecnológico e da automação e, agora, chegamos à quarta revolução, a Era da Colaboração, onde vivemos uma verdadeira transformação digital com o surgimento da inteligência artificial, da internet das coisas e da computação em nuvem, só para citar alguns exemplos.

Todas as revoluções anteriores provocaram enormes transformações na sociedade da época, afetando desde o modo de produzir, comercializar e até mesmo de se viver de uma sociedade.

Diferente das três revoluções anteriores, quando a indústria exercia o papel fundamental de nortear o comportamento da sociedade, de ditar tendências, a quarta revolução viverá o papel oposto: ela deverá se adaptar às transformações nas relações de consumo. E as relações de consumo estão passando por profundas alterações, estão em constante mudança, alicerçadas pela tecnologia, cada vez mais presente no cotidiano dos consumidores de praticamente todas as classes sociais.

No mundo da quarta revolução industrial, os dados moldam os produtos.

A forma como as pessoas utilizam os produtos hoje sugere ao setor industrial e de serviços como será a concepção do futuro. Informações coletadas, como, por exemplo, como você dirige, dorme, assiste TV, etc. irão definir os itens que estarão disponíveis nas prateleiras algum tempo depois. Os resultados são novas mercadorias inspiradas no uso que o cliente faz dos produtos que possui, em uma abordagem de engenharia e design totalmente voltada para o consumidor.

Do ponto de vista industrial, para se adaptar a essa nova relação de consumo, o ponto-chave é ter como princípios a integração e a colaboração entre as diferentes áreas do setor produtivo, com a participação cada vez maior das pessoas para a resolução de problemas e também para a criação de novos produtos.

O engenheiro Kristian Arntz, do Instituto Fraunhofer, na Alemanha, em um simpósio realizado em Santa Catarina sobre a Indústria 4.0 destaca que:

“Pessoas, máquinas, peças e sistema têm que funcionar tudo junto”.

Segundo o engenheiro, “a quarta revolução industrial reúne, basicamente, quatro áreas: automação, cooperação e colaboração, fonte de informação e tecnologia da informação”.

“A colaboração entre diferentes áreas é a marca da indústria 4.0”.

Mas a era da transformação digital vai mais além do que colaboração entre diferentes áreas de uma empresa. A terceira revolução industrial, a era da computação, conectou o mundo todo, venceu a distância física e trouxe consigo o conceito de globalização.

Apesar dos avanços já conquistados, seja no aspecto moral da humanidade ou no desenvolvimento tecnológico, agora é preciso refletir como tanta inovação pode gerar ainda mais valor não só para o setor produtivo, mas também para a humanidade, especialmente para as pessoas que até aqui permanecem como as menos favorecidas.

O avanço tecnológico não faz mais sentido sem o avanço moral.

A Era da Colaboração deverá, acima de tudo, ter o compromisso de romper as fronteiras de nossos mundos individuais e construir um mundo onde o “eu” consiga verdadeiramente enxergar o “nós”, servindo como instrumento para o desenvolvimento coletivo, compartilhado, inclusivo e empático.

O fundador e presidente executivo do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab, em seu livro “A quarta revolução industrial” (2016) afirma que “estamos a bordo de uma revolução tecnológica que transformará fundamentalmente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Em sua escala, alcance e complexidade, a transformação será diferente de qualquer coisa que o ser humano tenha experimentado antes”.

No evento em Davos, em 2019, Schwab foi o fundador do evento “Globalização 4.0: Moldando uma Nova Arquitetura na Era da Quarta Revolução Industrial”, cujo objetivo era oportunizar a líderes globais refletir sobre a construção de um mundo em que todos possam mudar e crescer juntos.

Tecnologias revolucionárias

A quarta revolução industrial traz a premissa de que todos possam usufruir de tecnologias revolucionárias, como a inteligência artificial, big data, analytics, metodologias ágeis, entre outras, para transformar o modus operandi da sociedade, dos negócios e dos governos. Por meio destas tecnologias revolucionárias, setores primordiais para o desenvolvimento da sociedade, como a educação, saúde, transporte e segurança, serão enormemente beneficiados.

A produtividade industrial também se beneficiará em todos os tipos de indústria, assim como o setor de serviços.

A era da digitalização pode promover a inclusão, trazendo mais qualidade de vida às pessoas, gerando novas profissões e novas formas de exercer a empregabilidade.

A quarta revolução industrial deve valorizar tanto as pessoas quanto as novas tecnologias que, com inovações e desenvolvimento de soluções, deve contribuir para mudanças que gerem impacto social.

Tudo isto, no entanto, depende de mudanças no mindset, pois a Era da Colaboração exige mais adaptabilidade e resiliência.

Também é preciso pensar em um novo modelo de educação, no qual sejam desenvolvidas as habilidades para lidar com o mundo globalizado, volátil, incerto e, sobretudo, mais inclusivo. É preciso educar dentro do conceito de que a transformação digital ultrapassou fronteiras, possibilitou conhecer a realidade global e o futuro nos convida a usar todo este potencial agindo para que as diferenças possam ser cada vez menores.

É a Era da Colaboração entre governos, sociedade e organizações com e sem fins lucrativos buscando fazer com que todos usufruam do seu direito de viver melhor, em um mundo melhor, mais colaborativo, com mais empatia e maior disposição para diminuir as desigualdades.

A Era da Colaboração é diferente de tudo o que a humanidade já experimentou. As novas tecnologias estão possibilitando integrar os mundos físico, digital e biológico. A velocidade e a extensão desta revolução nos forçarão a repensar como os países se desenvolvem, como as organizações criam valor e qual é o real significado de ser humano.

É preciso pensar coletivamente na criação de um futuro onde a inovação e a tecnologia atendam às pessoas e não o contrário.

A história nos conta que as revoluções industriais impactaram não somente a tecnologia, mas também os sistemas econômicos, políticos, sociais e ambientais. A quarta revolução tomará a mesma direção, mas em uma velocidade muito maior. Tecnologias emergentes criam novas formas de mobilidade, comercialização, geração de valor e oportunidades.

O desafio no atual momento da humanidade é garantir que o acesso a estas tecnologias seja o mais democrático possível. É necessário garantir que mais pessoas tenham acesso a essas tecnologias cada vez mais sofisticadas e por meio delas possam criar valor a sua própria vida e para a vida de outras pessoas, colaborando para um mundo melhor.

A quarta revolução industrial só terá cumprido seu papel se transformar a vida das pessoas, por meio de desenvolvimento econômico, de geração de empregos e trabalhos qualificados e de elevação da qualidade de vida.

É fundamental reconhecer e gerenciar seus potenciais impactos e saber, exatamente, como construir melhor os valores positivos que essa revolução oferece para a humanidade.

· Será que estamos moralmente preparados para encarar este desafio?

· Será que conseguiremos dar sentido a este grande avanço tecnológico?

A quarta revolução industrial bate a nossa porta. É hora de darmos nossa colaboração!

Sobre a autora

Carla Sandler Especialista e Mentora em Processos Industriais, Melhoria Contínua e Indústria 4.0, Mestre em Ciências pela USP e Membro da Interactti – Rede de Empreendedorismo e Negócios.

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