A SOCIEDADE E AS EMPRESAS NA ERA DO PROPÓSITO E DA INOVAÇÃO EXPONENCIAL – 30.10.2020

Partindo do princípio que a sociedade é um “agrupamento de seres que convivem em estado gregário e em colaboração mútua”, as empresas, como parte da sociedade, devem colaborar para seu desenvolvimento e sustentabilidade. Parece simples e óbvio, certo? Não podemos, porém, dizer que este tenha sido o objetivo das empresas ao longo do tempo. Mas hoje algo está diferente. O que mudou ou está mudando e fazendo com que um novo olhar para a sociedade aconteça?

Globalização, avanço tecnológico, velocidade das transformações do indivíduo, a deterioração do meio-ambiente por um consumo crescente e inconsciente, desequilíbrio social, são alguns dos fatores que contribuem para uma reflexão e consequente mudança na sociedade, que nem sempre é consciente, mas que está de fato ocorrendo.

Empresas e sociedade vêm sendo impactadas pela inovação de forma até então desconhecida em nossa história. Movimentos inovadores e muitas vezes disruptivos, promovidos, principalmente pelas startups, estão contribuindo para uma rápida alteração no modo de vida da sociedade – compartilhamento, acessibilidade, financiamentos coletivos, transações financeiras simplificadas, redes sociais, entre outros. Entretanto, a inovação não terá valor nem impacto positivo, se não for centrada nas PESSOAS.

Com a chegada de uma nova geração de profissionais – mais envolvidos, mais exigentes, mais reivindicadores, de novas tecnologias e de novos modelos de negócio – mais velozes, mais competitivos, mais globalizados, é imprescindível que as empresas se adaptem rapidamente para manterem-se relevantes, no que podemos chamar de  “nova economia”. 

No caso específico do Brasil, um país ímpar, com dimensões geográficas continentais e diferentes culturas e hábitos, o desafio das empresas para que sejam inovadoras, “verdes” e lucrativas, é ainda maior: são vários “Brasis” em um só Brasil, com vários sotaques, histórias, essências, cores e sabores. Por isso, torna-se fundamental o estabelecimento da conexão da empresa com a sociedade local para que ela possa ter sucesso do Oiapoque ao Chuí.

Some-se a isso o fato de que as empresas brasileiras têm uma dificuldade enorme em lidar com a insegurança jurídica, inconstância regulatória e tributária, além do contexto político, que não privilegia o longo prazo, em especial ao que diz respeito à educação populacional.

Neste contexto, vale ressaltar que 2020 foi extremamente abalado pela Covid-19 e com perspectiva de redução do PIB em cerca de 5%, onde muitas empresas quebraram, enquanto outras tentam sobreviver. Mas, ao mesmo tempo, é um momento impulsionador da criatividade, inovação e acelerador da transformação digital. Há oportunidades sim, mas os desafios são imensos.


E essa imensidão começa com o entendimento do papel da organização e o grau de compromisso que ela deve assumir com o meio-ambiente, sociedade e economia. Além disso, ter um posicionamento claro, que considere as necessidades e vontades atuais e futuras de todas as partes interessadas, mesmo que isso signifique adentrar e entender melhor outros setores da economia ou adjacências dos mercados já explorados, é imperativo.

Para que este posicionamento seja possível, uma cultura organizacional favorável, focada em inovação e agilidade, deve ser criada e mantida para permear todos os níveis da organização, pois sem a integração e engajamento das partes interessadas, não haverá evolução, transformação e sobrevivência.

Não há mais espaço para buscarmos um futuro em que o sucesso individualizado da organização seja suficiente quando há perda para o meio-ambiente e para a sociedade. Em um cenário tão dinâmico e interconectado como esse, ter um propósito bem definido passa a ser cada vez mais importante para direcionar uma visão de futuro e nortear a execução do dia-a-dia e de forma integrada com o ambiente em que a organização está inserida. Não basta parecer, é necessário ter, de fato, empatia e tomada de decisão centrada no cliente e no ecossistema que o suporta.

Pelo que vimos até aqui, é possível afirmar que estamos perto de um discurso uníssono de que o digital veio para ficar e para transformar as relações, que devem ser mais empáticas e cuidadosas com as pessoas. Além disso, as organizações precisam não só levar em consideração todas as partes interessadas, mas também serem adaptáveis, flexíveis e resilientes para inovar e continuar entregando valor no longo prazo. O sucesso aqui estará diretamente ligado a longevidade da organização.

Estas características já vinham sendo calorosamente discutidas antes da pandemia, que somente acelerou o olhar nesta direção, uma vez que, certas decisões e direcionamentos, geralmente associados a capacidade de inovar, passaram a ser questão de sobrevivência em muitos segmentos da economia.

Com isso, outro desafio evidente para as organizações é aproximar mais o discurso da prática.  Muitas ainda não conseguem dar esse passo crucial, pois esbarram já na identificação de suas próprias lacunas, as quais deveriam ser endereçadas para que a prática correspondesse com o discurso atual.

Por outro lado, em organizações que conseguiram se adaptar e criar uma cultura que aceita a dinâmica de interconexão com seu ecossistema e evolução contínua, possuem traços marcantes de um propósito diferenciado, longevidade, governança, cultura inovadora e adaptação constante.  E muito deste direcionamento e sucesso pode ser atribuído a um conselho presente e atuante, que sabe equilibrar velocidade e controle.

Neste mundo das hiperconexões e exposições que contextualizamos acima, o papel do conselho não pode mais ser o de um ente da organização fechado em si mesmo, mas deve sim posicionar-se como um catalizador de uma cultura pró inovação, conectando o propósito da empresa com as expectativas da sociedade.  

A colocação do consumidor como o detentor do poder da escolha mudou a forma como empresa e sociedade se relacionam e impactou diretamente os conselhos, que não podem mais usar apenas um tipo de ferramenta para tratar com as empresas e precisam ser diversos e terem entre seus membros pessoas que representem todas as facetas de uma sociedade plural, como a brasileira, por exemplo.

No contexto brasileiro, temos culturas diferentes, baseadas em cosmovisões diferentes, com realidades econômicas diferentes. Somos permeados de empresas locais, aquelas que foram criadas por famílias empresárias, que vieram de muitas culturas, por isso vemos uma diversidade de comportamento, que demanda dos conselheiros uma capacidade de se adaptar à estas origens, até porque os conselheiros também trazem suas culturas e formações de uma região para outra e mesmo dentro de sua própria região cultural. Esta é a beleza da contradição e da diversidade.

Isso não é errado nem certo, melhor nem pior, é apenas um fato que nos impõe uma postura, como conselheiros, de observar como a boa governança e suas práticas podem ajudar as empresas a serem também um agende de transformação da sociedade.

Trazendo para a prática, o discurso feito acima, o Conselho, com enfoque em inovação, deve ter características e papeis que consideramos fundamentais para que as empresas em que atuam estejam efetivamente alinhadas às exigências de uma nova sociedade:

– Diversidade em termos de gênero, raça, geração, crenças e em alguns casos também de nacionalidade entre seus membros;

– Olhar estratégico e de longo prazo para inovação – ser capaz de discutir e aprovar a política de inovação alinhada ao posicionamento estratégico adotado -, mas com participação no curto prazo, especialmente na gestão;

– Genuína preocupação com as questões ambientais;

– Entender que novas formas de trabalho e modo de vida estão surgindo para apoiar os executivos na tarefa de equilibrar as formas;

– Entender todas as partes interessadas, ou seja, ter uma cosmovisão que vá além do lucro, porém sem deixá-lo de lado;

– Entender que o mundo funciona de forma mais ágil do que antes e isso pode significar assumir novos tipos de riscos;

– Maior interação com o corpo executivo, dada a velocidade das mudanças;

Ainda, sem segregar, mas tratando com maior especificidade as empresas da economia ágil, baseada em tecnologias:

– Ser capaz de entender que seu papel é mais consultivo do que deliberativo, pois este “poder” está nas mãos dos fundadores que vivem o dia a dia da organização. E que quanto menor for a intervenção e maior a mentoria (em sentido mais amplo possível) melhor será o resultado;

– Ser uma ponte entre os fundadores e os agentes de financiamento: angel investors, venture capitalists, fundos de private equity, corporate venture, etc.;

– Colaborar com networking, conexões com empresas parceiras e empresas de grande porte, para troca de experiências e realização de negócios;

– Ter a compreensão de que nestas empresas EBITDA (na verdade indicadores financeiros) não é o mais importante indicador de resultado. Aprender que existem indicadores de performance que podem ser mais importantes que os de resultado;

– Colaborar com os fundadores para escolher bem os investidores que eles irão permitir fazer parte da sua empresa.

Por fim, nada disso é simples ou facilmente implementável. Dependerá fundamentalmente das PESSOAS que compõe esse ecossistema de conselhos e empresas estarem efetivamente dispostas a lutarem para o que é realmente melhor para a sociedade e para as suas empresas em detrimento de seus interesses próprios. No mundo atual, onde o propósito ganha força e a inovação é exponencial, a palavra de ordem é colaboração.

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