Dado Schneider – 15-05-20

O NOVO A-NORMAL

Por Dado Schneider – Professor, Pesquisador, Palestrante, Escritor, Doutor em Comunicação pela PUC/RS

“Viveremos esta ‘Pororoca Cultural’ por algum tempo… Porque o século XX ainda insiste em não deixar o século XXI decolar…” Quando falo assim – ou melhor, falava… antes do Covid-19 – em minhas palestras, eu coloco/colocava um antebraço sobre o outro, cada um representando um dos dois séculos. O braço de cima é o do século XX pressionando o de baixo (o séc.XXI), que treme, reage, se sacode, pressionando o de cima – não de medo, mas louco para “libertar-se”.

Minha ideia é mostrar que ainda vivemos/vivíamos sob as regras do séc.XX e que o séc.XXI já está entrando em sua terceira década! E a expressão “Década de 20” é muito interessante, pois permite-me fazer uma comparação com a “Década de 20” do séc.XX, que foi impressionante: avanços tecnológicos fantásticos, explosão das artes, transformações nos costumes, com luta feminista, as sufragistas… E, aqui no Brasil, a Semana de Arte Moderna de 1922.

“Tudo isso, também, porque o mundo entrou na Década de 20 do séc.XX recém saído de uma guerra, a Primeira Grande Guerra.” E eu ressaltava: “neste século XXI, teremos um salto semelhante ao dado na mesma década do século passado (ou até maior) com uma grande vantagem – que é darmos este salto incrível, agora, SEM termos que precisar passar por uma guerra !” Isso que eu nem citava a Gripe Espanhola de 1918/20 – e jamais imaginaria este Covid-19…

Bem, agora temos uma “guerra” para testar a todos nós… E, se esta guerra não é comparável às duas Grandes Guerras do século passado, uma vez que havia bombardeios aéreos, ela é, sim, gigantesca e, como as outras citadas, não tem previsão de final… Pois estamos nos nossos “abrigos” – não antiaéreos como os daquelas guerras, mas anticontato social – e temos de resistir. (Pelos relatos de pessoas mais antigas de minha família, borbardeios são ainda piores.)

E, se compararmos com a terrível Gripe Espanhola do século passado (eu fui pesquisar), havia tantas informações desencontradas que, diante do cenário de mídia, de transmissões além-mar, tanto de notícias quanto daquele próprio vírus maligno, os mortos atingiram um número, falando por baixo, entre 17 e 50 milhões de pessoas em todo mundo (sim, milhões), ou astronômico, que passa do acumulado de 100 milhões de pessoas. Em 2 anos, no mundo todo. Caramba.

Naquela época, também havia controle e distorção da informação – sempre houve isso, desde o Egito Antigo (ou antes). “Fake News” é a definição da moda, um termo muito falado, hoje, para definir algo humano, que é “defender o seu”… e que se dane o coletivo. Isso é característica do Homo Sapiens, mas não irei por este caminho neste artigo, pois não sou antropólogo ou sociólogo. Meu Doutorado é em Comunicação – e nisso eu posso opinar e, até mesmo, ajudar.

Hoje, surgem inúmeras teses, infinitas teorias, confronto de visões quanto ao ataque ao vírus inimigo, números aqui e acolá para colaborar com o nosso sentimento de F.O.M.O. (“Fear Of Missing Out”, traduzindo, “Medo de Ficar Por Fora”), tal é o volume de informações que bombardeiam nossa cabeça, diariamente – e sobre um assunto único e seus desdobramentos, sejam políticos, sociais, econômicos, de saúde pública ou até mesmo sobre cancelar o futebol…

Se, lá no séc.XX, ao final da Primeira Grande Guerra e colado com a dizimação em massa de pessoas pela Gripe Espanhola, já havia desencontro entre as pessoas e medo em relação ao futuro… imaginemos hoje, com este volume brutal de informações verdadeiras e falsas e, principalmente, com a possibilidade de qualquer indivíduo ser fonte de notícias, através das Redes Sociais… Sim, o quadro é complexo. Nada está garantido, nem mesmo o Futuro.

“O Novo Normal” é uma expressão que já se usava há muito tempo, fosse para definir uma nova situação social pós-algo acontecido de qualquer natureza, desde o campo social, político, econômico, empresarial, conjugal – o que fosse. E, agora, com essa situação inédita (neste século) de quarentena provocada por uma pandemia de alcance global, o termo volta a ser difundido justamente porque a situação pela qual estamos passando nos torna “Adultos Inéditos”.

Pois “Somos Adultos Inéditos” é uma expressão que criei justamente para explicar a revolução comportamental que foi iniciada com a internet, passando pelo surgimento de redes sociais e, agora, com Big Data, Robótica e Inteligência Artificial – e que caiu na cabeça de quem nasceu no século passado e, pior, no milênio passado. Era meu slide mais fotografado nas palestras, pois sei de gente que foi pra casa debater isso com familiares e/ou colegas de trabalho.

É, somos adultos inéditos porque, no desenrolar desta crise global e, com toda a certeza, por mais alguns dois ou três anos de ajustes, nos depararemos com novas formas de viver, de se relacionar, de comprar e vender, de trabalhar, de viajar (ou não mais), enfim, nunca mais voltaremos à “normalidade”. Nosso “normal” acabou. Não volta mais. E isso gerará muitos saudosistas… Mas saudosismo sempre houve: toda a hora se ouve “bom era no meu tempo”, não é?

E “O Novo Normal” é termo da moda, como já o foram “disruptivo”, “exponencial”, “singularidade”, “stakeholders” (os públicos de interesse da empresa) e, sempre presente, a expressão usada após qualquer frase, “…de forma sustentável”… O novo normal, para uns, será ter um olhar mais humano, assistencialista, colaborativo etc – mas não para todos. E surgirá – isso é humano e deve datar desde que os humanos passaram a usar a linguagem para se comunicar – gente achando isso uma tremenda bobagem ou chatice.

Pois não vamos mudar tanto em opinião como acabaremos tendo de mudar em termos de comportamento, ações e atitudes. O mundo certamente sairá desta mais colaborativo e humano, mas não necessariamente isso será continuado. Ninguém virará tão bonzinho assim, em 6 meses, e ninguém ficará mais malvado, com raiva de tudo o que vem nos acontecendo e ainda está para acontecer nesse turbilhão de mudança.

“Mudar não significa necessariamente gostar do que está acontecendo. Mudar é entender o que ocorre para tentar aceitar o que há. Mudar, hoje, é entender para aceitar” – e isso é o que tenho como ideia central de minhas palestras. A virada de século e de milênio, em todo mundo, obrigou a uma “virada de chave” em nossas cabeças (mal traduzido para “mindshift”, em inglês, algo tão falado e que virou moda, também). E leva-se muito tempo para assimilar.

Em meu próximo artigo, abordarei algo bem da minha área, Comunicação, que é Atenção-Percepção-Retenção de Informação – e focado em Percepção e, acima de tudo, criação e/ou mudança de percepção nesses novos tempos. Digo isso tudo porque não é da noite para o dia que “O Novo Normal” se instalará na sociedade e brotará em muitos corações e mentes, pelo mundo inteiro, algo desejado como se fosse uma melhoria da sociedade – e eu torço por isso. Mas…

O mais provável é que surjam mil novas possibilidades de se pensar, agir, cooperar, se relacionar, transacionar, comprar, vender, comunicar, amar, odiar, transgredir, enfim, o novo normal virá colado em algo que eu denomino de “O Novo A-Normal”. Não estamos mais numa Era Vertical, onde o poder era exercido (fosse em Família-Escola-Empresa-Sociedade-Governo-etc) de cima para baixo e acatado por temor. Hoje estamos na Era Horizontal e tudo é mais complexo.

Por isso é que o título deste artigo é “O Novo A-Normal” porque até isso não podemos prever. Sou um otimista e acho que estamos dando um salto incrível com isto tudo que passamos a ter de enfrentar globalmente, mas não sou tão sonhador, assim, a ponto de imaginar que estamos indo para um mundo melhor. Ele não será pior ou melhor: apenas será MUITO diferente com o que vínhamos tendo como “normal”ou “anormal”… Vai ser preciso muito esforço, por parte de todos nós, para que se tente entender todas as mudanças.

Vai ser algo anormal, com certeza. Que sejamos maduros e evoluamos.

 

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