Metade dos brasileiros já confia na IA para tarefas diárias e outros artigos da semana – 24.11.2025

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Você vai ler na coluna de hoje: Metade dos brasileiros já confia na IA para tarefas diárias, Nasce A «Sessalescência» :  homens e mulheres nascidos nas décadas de 50 e 60 não têm planos para a terceira idade, Uma empresa deve mudar a sua logo a cada 10 anos, O ensaísmo de entretenimento e Marcas abandonam perfeição e abraçam o real para se conectar com o público. 

 

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ATENÇÃO, CONCORRENTES AO PRÊMIO ARP 2025

Na próxima quarta-feira, dia 26 de novembro, a Coluna do Nenê apresenta um especial exclusivo com os concorrentes e os cases inscritos no Prêmio ARP 2025.
Se você deseja que o seu case apareça nesta edição especial, envie o material até amanhã, dia 25, às 18h.
Recebidos após esse horário não poderão entrar na seleção desta semana, então não deixe para a última hora.
Contamos com a participação de todos os amigos !

 

 

Metade dos brasileiros já confia na IA para tarefas diárias

Por Meio & Mensagem

 

Mais da metade dos brasileiros se sentem confortáveis em depender da inteligência artificial para tarefas do dia a dia. É o que revela a pesquisa global realizada pela YouGov e encomendada pela Zendesk.

Segundo os dados levantados, 75% dos brasileiros afirmam confiar na IA para tarefas como organização de listas de afazeres e calendários. Em seguida, aparecem atividades como agendar reuniões e gerenciar e-mails, opção escolhida por 64% dos respondentes.

Os resultados apontam para uma nova era do uso da IA no Brasil, que já se consolida entre os países mais adeptos da tecnologia, ao lado da Índia e Singapura. A utilização vai desde atividades pessoais até corporativas, com foco em eficiência e personalização.

No entanto, a confiança ainda representa uma barreira no uso da tecnologia para atividades mais sensíveis. Segundo o estudo, apenas 39% dos respondentes globais confiariam em um assistente para tomar decisões relacionadas a finanças.

No Brasil, esse cenário se apresenta de maneira diferente: apesar da incerteza quanto a segurança da IA, sete em cada dez brasileiros afirmam confiar na tecnologia para gerenciar suas finanças no dia a dia.

“O consumidor brasileiro é muito aberto à mudança, mas ela tem que ser segura. O setor financeiro é muito crítico, por isso é importante que haja transparência nos processos para isso acontecer”, afirma Walter Hildebrandi, CTO da Zendesk. “Se as empresas hoje estão no momento de buscar confiança na tecnologia, o consumidor também vai passar por esse momento, principalmente com os assistentes pessoais”.

Em países que são mais adeptos ao uso da IA, a confiança se mostra maior: na Índia, por exemplo, 37% das pessoas afirmam confiar totalmente ou em grande parte na tecnologia. Já na Alemanha e Reino Unido, o número cai para menos de um em cada dez pessoas.

Outros fatores que contribuem para certa resistência incluem segurança e privacidade dos dados (57%), transparência sobre a tomada de decisões (48%) e possibilidade de supervisão humana (46%).

A pesquisa da Zendesk releva ainda que aproximadamente um terço dos entrevistados aceitariam compartilhar dados básicos e pessoais com a inteligência artificial, caso houvesse uma garantia real de privacidade.

Esses dados mostram que o público está aberto a deixar que a IA cuide de tarefas repetitivas do dia a dia em troca dos benefícios que a tecnologia oferece. A possibilidade, no entanto, enfrenta resistência em países da Europa, com 56% dos britânicos e 49% dos alemães afirmando não se sentirem confortáveis com nenhum tipo de concessão.

O CEO da Zendesk, Tom Eggemeier, explica que essa diferença está muito relacionada com a cultura de cada país. A França e o Reino Unido, por exemplo, são historicamente mais críticos e questionadores, enquanto o Brasil e Singapura já possuem uma cultura mais voltada à experimentação, com populações mais jovens e ávidas a descobrir, o que acaba impulsionando a transformação digital nessas regiões.

 

Substituição da interação humana

As promessas de eficiência, escalabilidade e personalização trazidas pela inteligência artificial a tornam muito atrativa, principalmente no ambiente corporativo, mas ao passo que o uso da tecnologia se intensifica, aumentam também as discussões sobre a importância da interação humana.

Segundo a pesquisa da Zendesk, mais da metade dos brasileiros prefere falar com assistentes humanos em vez de bots em situações de estresse, como um problema urgente ou viagens interrompidas.

Os resultados são ainda mais expressivos quando o assunto é atendimento ao cliente e interação com marcas. Apesar de 64% dos brasileiros confiarem em assistentes IA para tornar o suporte mais rápido, 67% concordam que empresas ainda não sabem como integrar a tecnologia no atendimento ao cliente.

“As empresas precisam entender que IA é muito mais do que um chatbot, tem milhões de aplicações, então é fundamental direcioná-la para core da operação”, afirma Hildebrandi. “Na Zendesk, por exemplo, falamos muito da IA para controle de qualidade: na indústria de CX você consegue uma amostra de 3% ou 4% dos tickets e escuta, mas com a IA você consegue cobrir 100% das interações, o que possibilita um nível de conhecimento muito maior”, explica.

O CTO destaca que a forma como a tecnologia vem sendo incorporada aponta para um cenário em que os assistentes pessoais dos consumidores passarão a interagir diretamente com os assistentes virtuais das marcas. Essa tendência promete ganhos de eficiência operacional, mas também negligencia o contato humano, comprometendo a construção de vínculos genuínos entre marca e público.

“Será que as empresas estão prontas para esse momento de perder o contato com o consumidor?”, diz Hildebrandi, destacando que cabe às empresas repensar a experiência de atendimento com IA. “Esse redesenho envolve incluir humanos em operações que hoje não os envolvem, além de repensar como a marca vai engajar os consumidores nesse futuro onde bot fala com bot”.

A pesquisa revela, ainda, que em caso de erros cometidos pelo assistente de IA, a maioria dos entrevistados ao redor do mundo optariam por recorrer à ajuda humana. A tendência se intensifica em erros relacionados à finanças, saúde ou violação de dados.

Pilares como segurança, transparência e supervisão ganham nova importância na era da IA, e tendem a se tornar chaves centrais para marcas que integram a tecnologia em seus processos.

“Entendemos que existe toda uma pressão da sociedade e dos acionistas para a implementação de IA, mas esse clamor muito rápido pela IA não deveria comer etapas que são fundamentais para ter uma adoção segura e gerar confiança nas empresas. Você tem que ter métricas e objetivos que sejam claros e mensuráveis”, afirma Hildebrand.

 

 

Nasce A «Sessalescência» :  homens e mulheres nascidos nas décadas de 50 e 60 não têm planos para a terceira idade.

Por Tiago Henrique Bona

 

Nas redes sociais circula um artigo do Dr. Manuel Posso Zumáraga, no qual surge um novo termo: sessalescência. Este termo refere-se a um grupo de adultos com mais de 60 anos.

Trata-se de homens e mulheres que utilizam as novas tecnologias, são modernos, progressistas e cheios de vontade de aproveitar a vida, aprender coisas novas, contribuir para a sociedade, viajar, conhecer novas pessoas e assumir o controlo do seu próprio destino – e que se recusam a aceitar o papel de «idosos».É uma geração que eliminou a palavra «sessentão» do seu vocabulário, porque o envelhecimento simplesmente não faz parte dos seus planos atuais. Trata-se de uma verdadeira novidade demográfica, comparável ao surgimento da «adolescência» em meados do século XX, que também surgiu como uma nova categoria social.

Este novo grupo de pessoas, que hoje atingiu os sessenta ou setenta anos, teve, em geral, uma vida plena. São homens e mulheres independentes, que trabalham há muito tempo e conseguiram mudar o significado muitas vezes sombrio que a literatura atribuiu ao termo «trabalho» ao longo de décadas.

Longe de escritórios sombrios, muitos deles encontraram há muito tempo a atividade que mais amavam e hoje vivem dela. Talvez seja por isso que se sentem tão realizados; alguns nem sequer sonham em se aposentar. Aqueles que já estão reformados aproveitam cada dia ao máximo, sem medo do tempo livre ou da solidão. Eles apreciam o ócio, porque depois de anos de trabalho, educação dos filhos, privações, contratempos e coincidências, faz bem olhar para o mar com a cabeça vazia.

A mulher  sobreviveu à busca pelo poder que o feminismo dos anos 60 lhe proporcionou e conseguiu parar para refletir sobre o que realmente queria. Algumas foram viver sozinhas, outras iniciaram cursos universitários que antes eram exclusivos para homens, algumas concluíram estudos universitários juntamente com os seus filhos, outras decidiram ter filhos ainda jovens, foram jornalistas, atletas ou criaram o seu próprio «eu».

 

Assim são as mulheres dos anos 50

No entanto, já se pode afirmar que elas não são pessoas «paradas no tempo»: pessoas na casa dos 60 ou 70 anos, homens e mulheres, usam o computador como se tivessem feito isso a vida toda. Escrevem-se, encontram-se com os filhos que moram longe e até esquecem o telefone antigo para contactar os amigos. Na maioria das vezes, estão satisfeitas com o seu estado civil – e, quando não estão, não se preocupam em mudá-lo. Ao contrário dos jovens, os sedentários conhecem os riscos e pesam-nos. Ninguém chora quando perdem: pensam, tomam notas, mantêm o seu estilo… Eles não invejam a aparência de jovens estrelas do esporte, nem sonham em ter o personagem de uma diva do show. Em vez disso, eles sabem o significado de um olhar conspiratório, uma frase inteligente ou um sorriso iluminado pela experiência.

 

 

Uma empresa deve mudar a sua logo a cada 10 anos!

Por Luciano Deos

 

Quando comecei no mercado, marca era logo, e essa era aa frase que eu mais ouvia.

Dez anos. Sempre dez anos. Era quase uma lei da física do branding. Isso me assombrava, pensava: “vou morrer de fome esperando o cliente me chamar de década em década.”

Esse número não saiu do nada.

No passado, mudar uma marca custava caro. Fachadas, materiais impressos, sinalização. Cada alteração era um investimento brutal. A conta não fechava para fazer toda hora, então inventaram um ciclo seguro: dez anos.

O digital mudou o jogo.

Hoje o custo de rollout caiu. Você atualiza um site, troca assets digitais, ajusta redes sociais. A mudança acontece. O físico ainda existe, mas deixou de ser impeditivo para a maioria das marcas. O que antes travava uma evolução agora é operacional, não estratégico.

(É só perguntar para o Itaú o tempo que ele vai levar para trocar todas as fachadas das suas +4.000 agências… e tudo bem.)

E aí começou o problema oposto.

Conheci um diretor de uma grande empresa que disse: “Rebranding virou parte da estratégia de comunicação.” Como se fosse uma ferramenta publicitária, pronta para sinalizar mudança sempre que a empresa precisasse criar um “buzz”.

Rebranding não é campanha, nem refresh de temporada.

É estratégia e movimento, mas orientado pela essência, não pela facilidade.

O fato de ser mais barato não significa que devemos fazer toda hora. Marcas são organismos vivos, mas não trocam de pele porque “acordaram com vontade”.

Tem marcas que mantêm a mesma identidade, posicionamento e também seu logo há décadas. Outras evoluem com mais frequência porque a essência pede, a estratégia demanda, o negócio mudou de verdade.

A pergunta não é “quando mudar”. É “por que mudar”.

Se a resposta for “porque é fácil”, “porque precisamos mostrar movimento” ou “porque o concorrente mudou”, você está caindo na mesma armadilha que criou a regra dos dez anos.

Só que do lado oposto.

Facilidade sem critério é tão perigosa quanto rigidez por medo.

 

 

O ensaísmo de entretenimento

Por Luciana Molina

 

O maior perigo não é a falta de leitores, mas a proliferação de livros que ensinam a substituir o pensamento crítico pela aquisição de referências vazias

 

1.

Muitos se precipitam em denunciar o declínio da ficção nos tempos correntes. A produção de não ficção, no entanto, merece um escrutínio. Há um gênero de livros invadindo o mercado editorial brasileiro e, possivelmente, do mundo todo: o ensaísmo de entretenimento. Muito em breve, se bobear, vira categoria do prêmio Jabuti.

Muito em breve, com fé na humanidade, as pessoas perceberão que existe diferença entre ensaísmo de pensamento e ensaísmo de entretenimento. Ou, talvez, a se julgar pelo mercado livreiro e editorial brasileiros, bem como pelos circuitos de consagração, não perceberão nunca.

O ensaio do entretenimento é aquele que idealmente seria escrito pelo medalhão sobre o qual versa o conto Teoria do Medalhão, de Machado de Assis. Ao completar a maioridade, o filho é aconselhado pelo pai a se tornar um medalhão. É ensinado a salpicar elementos de erudição no seu discurso, ao mesmo tempo em que deve escrupulosamente evitar qualquer pensamento original.

O “ensaísmo de entretenimento” apresenta as seguintes características: estilo leve com comentários espirituosos, performance de reflexão, mas sem produção efetiva de profundidade ou originalidade. Poderia ser equiparado aos livros de divulgação científica. A diferença é que não estamos falando de ciências entendidas como tais, e sim daqueles que se apropriam dos discursos das letras, das artes, da filosofia e das ciências humanas (com seu polêmico estatuto epistemológico entre ciência e arte) para entregar o arremedo de uma tradição chamada ensaísmo.

A observação atenta dos mostruários das livrarias e do catálogo das grandes editoras comerciais revelaria sua existência inequívoca. Já há claros equivalentes do gênero em crítica literária, linguística, história, antropologia, teoria de gênero, filosofia política etc.

Do exterior, muitos não hesitariam em apontar Byung-Chul Han como exemplo. O autor sul-coreano radicado na Alemanha parece operar com um princípio comum a todo ensaísta de entretenimento: reúne ideias que, apesar dos ares filosóficos, já foram previamente desenvolvidas por outros autores com mais singularidade, e, por isso, podem ser reputados como de domínio público.

 

2.

O ensaio de entretenimento se constrói com verniz intelectual. Cita acadêmicos, pensadores, artistas – em geral em versões simplificadas e destituídas de sua complexidade. Freud de manual: comporta-se como se refletir sobre Freud fosse fazer piadas sobre psicanálise à la Woody Allen. Mas, como todo conhecimento de superfície e ornamental, não dá nem peteleco nas teorias psicanalíticas.

Em vez de efetivamente questionar as relações de dominação entre homens e mulheres ou a definição de gênero como fazem Simone de Beauvoir ou Judith Butler, constitui-se como pastiche da crítica, em que os resultados já são sabidos com antecedência, e frequentemente se convertem em piadas cúmplices.

O ensaio de entretenimento substitui a dúvida pela anedota pitoresca. Exemplos são empilhados pela lógica da curiosidade lúdica, e não com o propósito de investigar uma questão. Nos seus piores momentos, o ensaio de entretenimento é uma versão mais longamente expositiva de o Guia dos curiosos. A sensação é de ser alimentado por vários drops informativos. Constitui-se como o gabinete de curiosidades dos antiquários.

A rádio-relógio escutada por Macabéa – agora, na versão culta. Do ponto de vista da tipologia textual, o ensaio de entretenimento é mais expositivo que argumentativo, pois se assemelha a uma coluna jornalística estendida, e não disputa epistemologicamente nada de particular. Empilha casos, exemplos e pequenas unidades de sentido, ao mesmo tempo em que escamoteia a vaziez de propósito.

O ensaio de entretenimento não apresenta novidade, mas deve posar de novidade. Por isso todo o aparato e o sem-número de profissionais da indústria vão ajustar o livro para ter um título ou pelo menos um subtítulo chamativo. As pessoas poderão supor que a obra joga nova luz a um tema premente, urgente, em voga.

Quando o leitor versado o escrutina, no entanto, depara-se com uma compilação de ideias familiares. É uma série de déjà vus em cascata. O gênero se constitui a partir do estranho paradoxo: não apresenta qualquer consistência de tese, ao mesmo tempo em que é afirmativo, porque desfila fatos, arrazoados e variações do já-sabido.

Se escrito hoje, o ensaio de entretenimento poderia ser sobre pós-colonialismo, antropoceno, inteligência artificial. A intenção é sugerir que há algo de importante e urgente a ser tratado. O ensaísmo de entretenimento tem por hábito cair no autoengano de indistinção entre moda intelectual e atualidade crítica.

Na curadoria de referências do ensaísmo de entretenimento, deve haver um pouco de clássico e um pouco de cult contemporâneo. Desse modo, atinge-se a dose perfeita de Distinção. Seu prestígio se constrói a partir do equilíbrio entre erudição e atualidade. O ensaio de entretenimento mantém a aura cool de quem sabe qual é a próxima coisa que deve entrar na moda.

 

3.

Tradicionalmente, o gênero ensaio em sentido forte não é apenas prosa culta e tampouco prosa para autor e leitor se sentirem cultos. Mas sim exame de objetos e problemas. No ensaísmo de entretenimento, temos prosa medianamente culta para passar o tempo do leitor. O ensaio em questão não faz pensar. Ele tão-somente ocupa as horas. Quando muito, é informativo, pois compila signos de erudição.

O ainda não compreendido, aquilo que se busca compreender e que escapa ao próprio pensamento, era a base do ensaísmo. O ensaísmo queria tentar pensar o ainda não pensado. Em sua raiz, trata-se de uma arapuca anti-positivista. E podemos dizer ainda: discreta, pois come seu objeto pelas beiradas e com delicadeza. O ensaio se sabe de antemão forma derrotada pelo assunto arisco que ele não consegue dominar em sua inteireza. Não faz estardalhaço das verdades, dos achados, das vitórias. É, assim, o oposto da eureca do ensaísmo de entretenimento. O ensaísmo de entretenimento é triunfalista.

Uma diferença crucial ocorre no tratamento do objeto-tema. No ensaísmo, a escrita buscar encharcar-se no objeto, de maneira a captá-lo de forma tão precisa que, para isso, é necessário admitir sua incapacidade de descrevê-lo em sua totalidade. Antes da linguagem se exaurir, o ensaísmo chega ao limite do conhecimento e às zonas de obscuridade dos objetos examinados. O ensaísmo admite o não saber. Por isso, seu modelo é o do Stalker explorando as zonas enigmáticas do filme de André Tarkovski. Já o outro modelo retira inspiração dos blockbusters de ação.

É o produto perfeito para um tempo em que a capacidade crítica das pessoas se atrofiou de tal forma que até a reflexão vem embalada em ideias prontas. Ou seja, se o ensaísmo literário foi levado à maestria por autores como Walter Benjamin e Susan Sontag, e, no Brasil, tornou-se fértil na produção de autores de tradições teóricas distintas, tais como Roberto Schwarz e Silviano Santiago, o “ensaísmo de entretenimento” finge pensamento, mas entrega simplificações vulgares.

É, em muitos sentidos, oposto ao que se entendia por ensaio, em que o autor trabalhava um tema, mas mantinha dúvidas suspensas e até mesmo o adiamento e a impossibilidade de conclusão definitiva. Mesmo quando a matriz do conhecimento não é propriamente a filosofia, o ensaísmo tem algo da perplexidade filosófica. Assim faz com a literatura, a cultura, a sociedade: mostra-as em suas fissuras e enigmas.

O trabalho intelectual, ainda que de maneira relativamente modesta, deveria, após a iniciação e formação em um campo de conhecimento, propor contribuições novas a esse mesmo campo. Em tese. Porque o trabalho intelectual e acadêmico não são uma mônada flutuando além da sociedade e do mercado editorial. E, por isso, é ele próprio afetado pelos influxos desses dois âmbitos.

Cada vez mais acadêmicos formados têm se tornado autores de ensaios de entretenimento. Uma das razões para isso é provavelmente o fato de a academia ser pressionada – não só, mas também – pelos órgãos de fomento a mostrar-se mais relevante para o público em geral. Esse movimento se constitui como uma reivindicação para que os acadêmicos meçam forças com os influencers e os produtores de conteúdo. Questiona-se, contudo, se, ao se lançarem à empreitada, os acadêmicos elevam o nível dos influencers, ou simplesmente descem ao nível deles. O certo é que os dois grupos estão se encontrando numa mediania.

Mesmo do ponto de vista pessoal, há cada vez mais acadêmicos buscando glória e louros nos elogios do público geral. Se você for uma subcelebridade do mundo intelectual, com presença nas redes, convites para as mídias tradicionais ou novas, pronto!, você é um ensaísta de entretenimento – ao menos em potencial. E pode reivindicar esse espaço ou ser convidado a ocupá-lo a qualquer momento.

 

4.

Ao lançar A sociedade do espetáculo, em 1967, Guy Debord trouxe ao mundo uma obra luminosa que, segundo ele próprio, encontrava novas confirmações a cada dia que passava. Ele enxergou com lucidez quase premonitória o modo pelo qual o espetáculo diluía qualquer sentido de especialização.

Há uma incompatibilidade intrínseca entre o conhecimento especializado e o saber que se quer deliberado pela opinião pública e pelo senso comum – como se uma discussão que demanda formação específica fosse passível de ser decidida pelo voto popular. Com isso, o próprio conhecimento e a universidade como espaço de construção de saber contra-hegemônico estão cada vez mais ameaçados.

Esses resultados são obtidos a partir da construção da forma e do estilo. Ao ler um ensaio de entretenimento, poderíamos lembrar de outro que foi lido no ano anterior. No entanto, sequer é possível lembrar daquilo que não deixa fortes impressões. Mesmo quando exploram temas muito distintos, os diferentes ensaios de entretenimento frequentemente manipulam um mesmo tipo de autoralidade de massas – e que quase sempre soa anódina.

A ideologia se cristaliza e opera na forma, no estilo, na expressão. A pasteurização é garantia de ampliação de leitores e se confirma até na escolha vocabular com vistas a produzir comentários jocosos.

Dois livros diferentes podem, por exemplo, tascar o adjetivo “pimpão” para desqualificar (ainda mais) um ponto de vista considerado inferior. Exame de ideias? Abertura ao contraditório? Nem pensar. Ironia condescendente. Afinal, não é preciso se esforçar tanto por criticar um ponto de vista que já está de saída derrotado. O ensaio de entretenimento não raro se satisfaz em apresentar uma crítica breve e corrosiva a uma tendência intelectual que foi exposta a partir de uma falácia do espantalho. A lógica discursiva do cancelamento passa a dominar internamente a produção intelectual. Em vez de argumentação e demonstração cuidadosas, lacre. A impostura intelectual falsifica em um mesmo golpe tanto o conhecimento como a ética do argumento.

Não há nada efetivamente a ser mostrado, expresso, apontado. Não há sequer desejo de convencimento, pois frequentemente o público já está previamente convencido. Às vezes, um ensaísta de entretenimento cita outro ensaísta de entretenimento. Afinal, é garantia de que está citando alguém que, como ele próprio, quando pensa alguma coisa, não pensa nada de mais.

 

5.

O ensaio de entretenimento é um híbrido mutante que sugere reflexão, mas entrega pensamento pronto. Os ensaístas de entretenimento podem evitar os clichês expressivos mais óbvios depois de cuidadosa revisão pela editora, mas não conseguem se desfazer dos clichês de raciocínio. Em alguns casos, até as referências e os exemplos são previsíveis.

Ou seja, engana-se quem acha que é possível resolver tudo a partir de redação bem revisada. Olhares e pensamentos batidos não são detectados por revisão técnica de textos. Mesmo que pudessem, é de se questionar se isso não seria contrário ao objetivo editorial de vender livros.

Faz-se um ajuste entre o que a opinião pública espera e o que se deve falar. Se o ensaio raiz jogava contra o leitor e até contra si mesmo, o ensaio de entretenimento joga para o público. Seu público-alvo é o eterno público médio. Ele não quer ler autoajuda e nem o último livro-conforto de ficção japonesa. Acha Machado de Assis e Sérgio Buarque de Holanda muito complexos. Então que tal uma mediania? Algo meio jornalismo cultural?

O ensaísmo de entretenimento promete reflexão, mas dispara dados e conclui apressadamente – e, em geral, as conclusões são banais. Ideias que você já viu de outras formas na web. Talvez inclusive vociferadas por alguém em uma rede social. É pensamento para quem não tem tempo ou disposição de pensar.

Ao fim e ao cabo, é o complemento perfeito para um tempo que vive de fake news. É só disparar alguns dados corretos, enfileirá-los em português revisado na norma padrão por uma grande editora, encaixar alguns comentários divertidos e… eis o ensaísmo de entretenimento. Ensaísmo com muito name-dropping e pouco deslocamento de perspectiva. O leitor sai do livro como entrou, mas com umas referências a mais.

Talvez seja essa a principal finalidade do ensaísmo de entretenimento: fazê-lo tomar contato com referências de livros para incluir nas leituras futuras. Ele mesmo provavelmente será esquecido em breve, já que não assombra a página com a dúvida e com o incognoscível.

Ler um bom ensaio é como espremer um limão. Tenta-se tirar o suco ao máximo, e mesmo assim algumas gotas permanecem inacessíveis. No bom ensaio, ocorre uma fusão entre pensamento e expressão. O ensaísmo de entretenimento dificilmente se presta a uma releitura, porque é transparente na primeira tacada. Ele diz muito a que veio, ao mesmo tempo em que não veio para nada de particular.

Em teoria, o ensaio seria diferente de uma crônica, mas até mesmo isso se torna cada vez mais embaralhado, e mesmo uma revista que se diz especializada em ensaios pode cada vez mais substituir o lugar do pensamento por relatos em primeira pessoa. A crônica é comumente taxada como um gênero tipicamente brasileiro, e, a princípio, não deveria ser descartada como incompatível com o ensaio.

Na realidade, o relato em primeira pessoa remonta a tempos e obras de pensamento de primeira grandeza, a exemplo de Confissões, de Santo Agostinho; Meditações, de Descartes; os Ensaios de Montaigne; as imagens dialéticas de Walter Benjamin em obras como “Infância em Berlim por volta de 1900” etc. Mesmo Platão valoriza a experiência pessoal ao tomar sua relação com Sócrates como ponto de partida para escrever os diálogos socráticos.

O grande problema do nosso tempo não é a autoficção entendida como tal, e sim a experiência estética de superfície, que não mergulha para o insondável e o complexo. Ficção e não ficção contemporâneas se assemelham pela obsessão da autoconfirmação.

No ensaísmo de entretenimento não há nada de especulativo e investigativo. Para tanto, o autor teria que habitar um certo ceticismo epistemológico. Tampouco há compromisso com a verdade como experiência de fronteira. Para isso, seria necessário arriscar errar o alvo. Mas também arriscar acertar. O ensaísmo de entretenimento é uma profissão de fé com valores intercambiáveis. Constitui-se como a atualização da famosa piada atribuída a Groucho Marx: se alguém não gosta de seus princípios, é possível trocá-los por outros.

Talvez seja o livro ideal para as classes médias e altas lerem nas férias enquanto tomam sol à beira da piscina se achando muito informadas, muito de esquerda. Ainda não ocorreu às grandes editoras explorar com mais firmeza o filão de mercado “leitores retrógrados”, pois continuam descrentes de que esses de fato leiam qualquer coisa. O ensaísmo de entretenimento é majoritariamente progressista.

Ele surge do consenso – mesmo que do interior de apenas um segmento social – e, ao final do livro, conclui com o mesmo consenso. O que deveria ser demonstrado nunca é de fato demonstrado, porque a reflexão dá lugar à aparência de reflexão. Trata-se de prova de pertencimento social via opinião e, por isso mesmo, qualquer possibilidade de dissenso, contradição e diferença efetiva é rapidamente reprimida e eliminada.

A sociedade atual se ilude com a ideia de que basta conclamar constantemente o poder da leitura para reafirmar seu compromisso com o pensamento crítico. Nada disso está garantido de antemão quando observamos a ascensão de modos de escrita que, devido a seu enorme contingente de matéria morta, permitem leituras mais passivas – e que acabam por sabotar, com a força do exemplo, o sentido de leitura complexa, profunda e disruptiva.

Afinal, a sociedade contemporânea acentuou a prática de leitura pelo WhatsApp e demais redes sociais. O teor e as características do que se lê também deveriam estar em questão. Por isso mesmo se faz importante discutir o ensaísmo de entretenimento e sua semelhança com o binge-watching obsessivo do feed e do streaming.

O leitor dessa modalidade de livros está entre o zumbi e o autômato passando páginas. Provavelmente não há diferença qualitativa significativa entre o ensaísmo de entretenimento e a criação de conteúdo para as redes sociais, e nem no modo como ambos os produtos são consumidos pelo público.

Não se trata da versão criativa do ócio, e sim da versão administrada: como não passam tempo sozinhas com o próprio pensamento, as pessoas não o cultivam com independência. Em vez disso, tags e slogans funcionam como atalhos para a aquisição de um vocabulário comum que se revela como uma espécie de totalitarismo ilustrado.

O que é aplainada não é só a linguagem como expressão: é o próprio mundo, é a própria realidade, transformada em companhia divertida de fácil assimilação para poucas horas. Mais tarde, o leitor vai comentar sobre o ensaio de entretenimento que acabou de ler com os amigos no carro subindo a serra e, em vez de produzir estupor, surpresa, questionamentos, vai ouvi-los concordando em uníssono. Se todos pensam a mesma coisa, o provável é que ninguém esteja de fato pensando.

 

 

Marcas abandonam perfeição e abraçam o real para se conectar com o público

Por Portal 6

 

A fachada de grandeza, perfeição e ausência de erros que antes eram características nas empresas abandonou o cenário fantasioso e deu lugar a histórias reais.

Conforme explica a palestrante e mentora em marketing digital, Laureana Guedes, grandes marcas como a Zara, que antes só exibiam modelos em ensaios conceituais, agora fotografam pessoas com roupas amassadas, em luz natural e até fazendo selfies em provadores.

A própria Dove, por exemplo, que estampava peles impecáveis, substituiu essa imagem por mulheres reais, com corpos e histórias reais.

A mudança, um tanto radical, não é à toa e chega com o objetivo de gerar sentimento de reconhecimento junto aos clientes. No entanto, não foram apenas as marcas que seguiram esse movimento.

“As pessoas também alteraram seus posicionamentos. Felipe Neto saiu do polêmico para o vulnerável. Drauzio Varella deixou o jaleco formal e virou um educador acessível. Camila Coutinho deixou de ser a fashionista intocável para se tornar a amiga que conversa num café. Pri Figueiredo trocou o fitness perfeito pela mulher real que sente, erra e existe”, afirma a especialista.

De acordo com a profissional, em meio a isso surge a pergunta: “Se até eles mudaram, o que faz você achar que essa onda não vai te alcançar?”

O posicionamento atualmente não é sobre parecer, e sim sobre pertencer — independente da profissão.

Laureana salienta que o público não está mais interessado em ver o título, mas em ver quem a pessoa realmente é e qual é o seu propósito.

“As pessoas não seguem marcas, elas seguem quem as faz sentir algo. […] A verdadeira pergunta é: você vai esperar o mercado te engolir ou vai começar a mostrar quem você realmente é antes disso acontecer?”, diz.

 

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