Você vai ler na coluna de hoje: O país do play: imagem, streaming e o novo caminho do consumo audiovisual, Regulamentação da IA no Brasil: uma urgência ética, e não apenas técnica, Privacidade, ceticismo e prazer: conheça os 4 perfis que definem o consumo do futuro, Só quebra prato quem lava e O Mercado Publicitário conhece o Ecossistema Gamer?
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O país do play: imagem, streaming e o novo caminho do consumo audiovisual
Por Danilo Teixeira – Consultor de gestão em redação, especialista em TV, plataformas digitais e mestrando em Comunicação
A explosão de conteúdos ao vivo no streaming e a consolidação da cultura do “vídeo first”, especialmente no esporte e no jornalismo nas redes sociais, mostram a força do audiovisual no país. Assistir deixou de ser um ato passivo: hoje, o consumo de vídeo acontece de forma simultânea, nichada e multiplataforma. A transmissão de um jogo, a cobertura de um fato jornalístico ou a reação de um influenciador competem pela mesma atenção, muitas vezes, no mesmo minuto. O vídeo se tornou a linguagem dominante na nossa sociedade.
Casos como o da CazéTV ajudam a explicar esse movimento. A operação da LiveMode, que transmitiu competições como Super Mundial de Clubes 2025, campeonatos estaduais, Copa do Mundo do Catar em 2022 e Olimpíadas de Paris em 2024 pelo streaming, mostrou que há espaço para novos modelos de produção esportiva, menos engessados e mais conectados. Na mesma direção, a criação da GE TV — canal multiplataforma do Grupo Globo — sinaliza uma mudança estratégica do maior conglomerado de mídia do país: investir em tecnologia, gestão de talentos, reorganização de processos e reposicionamento editorial para dialogar com públicos que já não se informam apenas pela TV tradicional. O jogo mudou.
Os números confirmam essa virada. Nos anos 2024 e 2025, o Brasil bateu recordes de consumo de vídeo. Segundo o estudo Inside Video 2025, da Kantar IBOPE Media, o formato impactou 99,54% da população brasileira em 2024. O vídeo, hoje, faz parte do dia-a-dia do consumidor: informa, entretém, engaja, converte. Não é apenas conteúdo, virou ativo para marcas, plataformas e veículos.
O dado mais simbólico talvez seja o tempo médio diário de consumo: mais de cinco horas por pessoa. As TVs conectadas seguem liderando, mas os smartphones avançam rapidamente para dar acesso ao audiovisual. O resultado direto disso é uma avalanche de produções em vídeo, distribuídas em formatos variados, do vertical das redes sociais até as transmissões ao vivo de eventos. O volume cresce em ritmo acelerado; a qualidade, nem sempre acompanha.
Com essa expansão, a produção de vídeos aumentou muito. O desafio agora não é apenas produzir mais, mas produzir melhor. É preciso pensar em formatos adequados para cada tela, criar conteúdo mais interessante e formar profissionais preparados para esse ambiente audiovisual, seja na telona ou na telinha. A inteligência artificial pode ajudar nos processos, mas o principal continua sendo contar boas histórias e criar conexões reais com quem está do outro lado da tela.
E 2026 promete ! Ano de Copa do Mundo e Eleições. A geração de conteúdo trará mais transmissões em vídeo, ao vivo, direto do local e com comentários e análises. Essa fórmula deve se espalhar pelos veículos tradicionais e digitais. Os vídeos ocupam espaço e lotam as “prateleiras dos consumidores”, mas no fim das contas, o mais importante é ser visto, ouvido e lembrado.
Regulamentação da IA no Brasil: uma urgência ética, e não apenas técnica
Por Alexandre Pierro
Você confia plenamente nas informações fornecidas por qualquer inteligência artificial? Muitos acreditam que sim, 100%, o que não deveria ser o caso. Embora esses sistemas, capazes de processar e gerar insights a partir de enormes bancos de dados, já façam parte de nossas rotinas, notícias falsas, vieses algorítmicos e violações de privacidade ainda estão constantemente presentes, justamente por causa do uso irresponsável e antiético dessa tecnologia no dia a dia. Não basta desenvolver uma IA robusta; é preciso responsabilizá-la.
Há uma necessidade urgente de questionarmos criticamente o quanto podemos acreditar, como verdade absoluta, em tudo o que é apresentado por essas soluções, o que tem impulsionado a aprovação do Projeto de Lei 2338/2023, que visa justamente regulamentar o desenvolvimento e o uso da inteligência artificial no Brasil. Desde o final de 2025, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) e o Senado Federal têm fortalecido sua cooperação nesse sentido, compreendendo a necessidade de uma regulamentação ética e segura, alinhada ao desenvolvimento tecnológico nacional da inteligência artificial.
O texto prevê investimentos superiores a R$ 23 bilhões em pesquisa, soberania digital e inclusão, consolidando a IA como um dos principais motores do desenvolvimento tecnológico e econômico do país – além de propor uma abordagem baseada em riscos, classificando suas aplicações de acordo com seu potencial de dano, similar ao que já se observa em muitos países europeus. Nesses países, todas as soluções desenvolvidas com o uso de inteligência artificial devem estar em conformidade com a regulamentação, sob pena de sanções.
Muitos ainda acreditam que a IA é um tipo de inteligência autônoma, capaz de pensar e decidir por si mesma. Na prática, porém, ela consiste em sistemas que operam com dados históricos, identificando padrões e projetando comportamentos. Portanto, se esses dados forem tendenciosos, incompletos ou incorretos, o resultado também será. Regular a IA não significa sufocá-la, mas sim estabelecer princípios básicos de funcionamento com ética e responsabilidade.
Sem regulamentação, não existem critérios mínimos para validação, transparência ou credibilidade das informações transmitidas por essas ferramentas. Um estudo internacional recente, liderado pela BBC e coordenado pela União Europeia de Radiodifusão (UER), comprova isso, revelou que os principais assistentes de inteligência artificial distorcem o conteúdo jornalístico em cerca de 45% das respostas. O número fala por si só, deixando claro que o problema é sistêmico, e não isolado.
Temos a oportunidade de nos inspirarmos nessas práticas e adaptá-las à realidade nacional, especialmente considerando outras importantes leis brasileiras que garantem a proteção de ativos sensíveis, como o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados, que precisarão ser harmonizadas com a possível aprovação final deste projeto.
A criação de um arcabouço regulatório inteligente pode nos posicionar como referência em inovação ética, impulsionando o poder econômico do nosso mercado e desbloqueando nosso potencial para aprimorar, de forma responsável, soluções de IA cada vez mais avançadas e seguras. Mais do que seguir tendências globais, trata-se de reconhecer que nenhuma tecnologia é neutra e que, acima de tudo, devemos saber como extrair seu potencial de forma segura e eficiente, criando as bases para um futuro mais justo, seguro e inovador.
Privacidade, ceticismo e prazer: conheça os 4 perfis que definem o consumo do futuro
Por Ian Cândido
A forma como consumidores se relacionam com marcas, produtos e experiências deve passar por mudanças estruturais até 2027, impulsionadas por um cenário marcado por crises sucessivas, excesso de estímulos digitais e crescente desconfiança em relação a discursos institucionais.
Em vez de segmentações tradicionais baseadas apenas em idade ou renda, a compreensão do consumo futuro passa a exigir uma leitura mais profunda de motivações emocionais, estilos de vida e atitudes diante da tecnologia, da informação e do mundo.
Essas transformações estão no centro das discussões apresentadas no episódio Lives of Tomorrow: Understanding the Future Consumer: Key Personas for 2027, podcast da WGSN, que reúne análises sobre o comportamento do consumidor a partir de uma perspectiva psicográfica.
Organização comportamental
Um dos vetores mais relevantes dessa transformação é a forma como diferentes gerações processaram eventos traumáticos recentes. Os millennials, impactados por crises como a recessão global, a pandemia e instabilidades econômicas recorrentes, tendem a adotar uma postura mais cautelosa, planejada e orientada ao futuro em suas decisões de compra.
Já a Geração Z, que atravessou a pandemia em fases formativas da vida, demonstra uma mentalidade mais imediatista e, em certos casos, niilista, priorizando o aproveitamento do presente e a satisfação de desejos no curto prazo.
Análises prospectivas indicam que o comportamento do consumidor tende a se organizar em torno de quatro grandes perfis psicográficos, que coexistem e se sobrepõem conforme o momento de vida, o tipo de produto e o ambiente de consumo. A premissa central é que o consumidor de 2027 será menos previsível por demografia e mais orientado por estados emocionais, valores e limites pessoais.
Os guardiões da privacidade
Com isso, emergem os chamados guardiões da privacidade, consumidores que valorizam controle, privacidade e uma relação mais intencional com a tecnologia. Para esse grupo, o excesso de notificações, a vigilância constante e a hiperconectividade deixaram de ser sinônimos de conveniência.
Pré-adolescentes e adolescentes nos Estados Unidos recebem, em média, 237 notificações de aplicativos por dia. O número ajuda a explicar por que cresce a demanda por experiências digitais mais limpas, silenciosas e menos invasivas, além de iniciativas de “desintoxicação digital”.
Empresas que já testaram estratégias nesse sentido começam a observar impactos mensuráveis. A adoção de pausas diárias de 15 minutos sem tecnologia em ambientes corporativos, por exemplo, resultou em melhora de 22,5% no estado mental dos funcionários, além de redução de estresse em 14,7%, aumento de produtividade em 33,2% e ganho de foco em 28,6%.
Os convencionalistas
Outro perfil relevante é o dos convencionalistas, consumidores que rejeitam o ritmo acelerado da vida contemporânea e buscam descanso, criatividade e conexões mais genuínas.
Para esse grupo, experiências offline, encontros espontâneos e interações sem mediação de telas ganham valor simbólico. O movimento se reflete desde espaços de convivência até novas formas de lazer e relacionamento, incluindo iniciativas que estimulam encontros presenciais e a retomada do contato humano como elemento central da experiência.
Os novos independentes
Os novos independentes representam um consumidor mais vigilante, crítico e desconfiado. Esse grupo questiona discursos prontos, desconfia de especialistas tradicionais e se mostra especialmente sensível a práticas como o greenwashing. A checagem de fatos passa a ser parte ativa do processo de consumo, e a confiança migra para recomendações percebidas como mais humanas, próximas e autênticas.
A perda de credibilidade de avaliações online tradicionais e o ceticismo em relação a conteúdos patrocinados reforçam um retorno a lógicas semelhantes ao boca a boca, agora mediado por comunidades e redes de afinidade.
Os energizadores
Por fim, os energizadores enxergam o consumo como uma ferramenta para lidar com um mundo percebido como hostil, complexo ou exaustivo. Humor, leveza e diversão deixam de ser acessórios e passam a integrar a proposta de valor de produtos e serviços.
Nesse contexto, experiências cotidianas são ressignificadas como fontes de prazer e engajamento, mesmo quando envolvem tarefas rotineiras. A lógica é combinar utilidade com entretenimento, criando pequenos momentos de alegria no dia a dia.
O que os perfis representam
Esses quatro perfis não são categorias fixas. Ao contrário, refletem estados comportamentais fluidos, que podem variar conforme o contexto, o canal e a necessidade. Um mesmo consumidor pode buscar privacidade e controle em serviços financeiros, valorizar diversão em experiências de mobilidade urbana e adotar uma postura crítica e investigativa ao consumir informação ou escolher marcas alinhadas a valores socioambientais.
A tecnologia — especialmente a inteligência artificial — deixa de ser vista apenas como ferramenta de eficiência e passa a ser avaliada por sua capacidade de ampliar conexões humanas, e não substituí-las. A expectativa é que soluções tecnológicas bem-sucedidas sejam aquelas que respeitem limites, reforcem vínculos sociais e ajudem o consumidor a fazer escolhas mais alinhadas ao seu estilo de vida.
Só quebra prato quem lava!
Por Cristina Duclos
Confesso que tenho muita dificuldade de entender o real benefício de se criar uma premiação focada em apontar os “piores” trabalhos.
Iniciativas como o Framboesa de Ouro sempre se apoiaram na ideia do humor, da ironia, da crítica divertida. Mas talvez seja justamente esse o ponto que mereça ser revisto.
Vivemos um tempo em que falamos cada vez mais, e com razão, sobre saúde mental, vulnerabilidade, exposição, coragem e risco. Sobre o custo emocional de se colocar no mundo, errar, aprender, tentar de novo. E, em paralelo, ainda achamos aceitável criar palcos públicos para apontar falhas individuais como entretenimento.
Ninguém acerta o tempo todo. Aliás, ninguém cresce acertando sempre. Crescimento vem justamente do risco, da experimentação, da ousadia de sair do lugar comum. Quem não erra, geralmente, é quem não se expõe.
Reduzir uma carreira a um único projeto, ou transformar um trabalho específico em rótulo público, diz muito mais sobre a lógica da crítica do que sobre o profissional criticado.
Só quebra prato quem lava.
Só erra quem faz.
Só é julgado quem se coloca.
Talvez o debate não seja sobre um filme, uma atriz ou uma premiação específica. Talvez seja sobre o tipo de cultura que estamos reforçando. Uma cultura que escolhe apontar em vez de compreender, expor em vez de contextualizar, ridicularizar em vez de amadurecer.
Criticar é fácil. Construir é outra história.
E coragem, definitivamente, não é assistir da arquibancada.
Post inspirado no meu amigo Renato Winnig
O Mercado Publicitário conhece o Ecossistema Gamer?
Por Ana Cássia Miguel, MSc.
O mercado gamer já se consolidou como uma das maiores indústrias globais da economia contemporânea, embora ainda seja interpretado por parte do mercado publicitário e de patrocinadores a partir de categorias que não dão conta da sua complexidade real. Segundo o Newzoo Global Games Market Report, a indústria de games movimenta cerca de US$ 189 bilhões por ano e conecta mais de 3,6 bilhões de pessoas no mundo, superando as receitas combinadas de cinema e música gravada e operando em uma escala comparável à dos maiores ecossistemas do esporte tradicional. Esses números, por si só, já afastam qualquer leitura que trate o setor como periférico. Ainda assim, a verdadeira dimensão do mercado gamer não está apenas no volume financeiro, mas na forma como consumo, cultura, tecnologia e comunidade se organizam de maneira integrada e contínua. Trata-se de um ecossistema baseado em recorrência, participação ativa e pertencimento, no qual a audiência não é espectadora passiva, mas agente diretamente envolvida, crítica e coprodutora/cocriadora de valor simbólico e econômico.
É nesse contexto que os chamados micro-influenciadores assumem um papel estratégico ainda amplamente subestimado. Diferentemente dos modelos tradicionais de influência, centrados em alcance massivo e exposição pontual, o ecossistema gamer valoriza consistência, autoridade prática e relação construída ao longo do tempo. Criadores com comunidades menores em números absolutos exercem, muitas vezes, impacto mais profundo sobre decisões de consumo, comportamento e fidelização do que grandes campanhas baseadas exclusivamente em visibilidade.
No universo gamer, influência não se sustenta em performance estética, mas em credibilidade técnica, convivência cotidiana e validação contínua por parte de uma audiência altamente informada e participativa. Para marcas que insistem em métricas superficiais, esse modelo pode parecer menos atraente; para aquelas que compreendem estratégia, trata-se de um dos ambientes mais eficientes para construção de valor de longo prazo.
A dificuldade do mercado publicitário em ler corretamente o ecossistema gamer não está relacionada à falta de dados ou à imaturidade do setor, mas à tentativa recorrente de aplicar lógicas de interrupção e controle a um ambiente que opera por relação, confiança e legitimidade cultural. Games não funcionam como mídia tradicional, e essa diferença não é um problema a ser corrigido, mas uma característica estrutural a ser compreendida. Quando marcas entendem que presença é mais relevante do que exposição e que pertencimento vale mais do que frequência, o potencial de retorno se amplia de forma significativa, tanto em impacto quanto em reputação.
A consolidação global desse ecossistema torna-se ainda mais evidente quando observamos eventos como a Esports World Cup, realizada anualmente em Riyadh, na Arábia Saudita. A edição de 2025 do torneio reuniu mais de 2.000 jogadores e 200 clubes de mais de 100 países e distribuiu um prize pool recorde superior a US$ 70 milhões, incluindo premiações para campeonatos gerais, competições individuais e MVPs, posicionando o evento entre os maiores da história dos esports. Eventos dessa magnitude não são apenas celebrações competitivas, mas plataformas de investimento, reconhecimento global e desenvolvimento de carreiras, atraindo capital, mídia e inovação para um setor que já ocupa espaço ao lado dos grandes esportes tradicionais. Países e organizações não alocam bilhões de dólares para sediar e estruturar eventos dessa dimensão por modismo ou aposta especulativa; fazem isso porque reconhecem no ecossistema gamer uma plataforma central de influência global e conexão com as próximas gerações.
Enquanto isso, parte do mercado publicitário ainda insiste em tratar games como um território experimental, quando na prática estamos diante de um dos ambientes mais sofisticados em termos de dados, engajamento e métricas de performance. O gamer não é um público disperso ou desatento; é exigente, crítico e profundamente sensível à autenticidade. Marcas que não compreendem essa lógica tendem a ser rejeitadas rapidamente, enquanto aquelas que se inserem de forma legítima constroem relações duradouras e altamente valiosas.
O mercado gamer não carece de legitimidade, números ou maturidade institucional. O que ainda falta, em muitos casos, é um olhar estratégico capaz de compreender que estamos diante de um ecossistema que reorganiza a forma como influência, consumo e cultura se articulam. Chamar games de nicho não é apenas um erro conceitual, mas um erro de diagnóstico estratégico.