A Proibição Seletiva: Por que vetar as bets expõe a hipocrisia do Brasil com o jogo de azar – 26.06.2026

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Você vai ler na coluna hoje: A Proibição Seletiva: Por que vetar as bets expõe a hipocrisia do Brasil com o jogo de azar, Qual a variação de delay entre transmissões da CazéTV e da TV aberta na Copa?, De quem é a agência?, Marketing não é achismo, A CazéTV é a grande vencedora desta Copa do Mundo. E isso diz muito sobre o futuro da mídia esportiva, Quando eu crescer, quero ser idoso, Porto Alegre Conecta o 4º Distrito ao Mundo no South Summit Madrid

 

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A Proibição Seletiva: Por que vetar as bets expõe a hipocrisia do Brasil com o jogo de azar

Por Nenê Zimmermann

Introdução
Em 30 de abril de 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra assinou o decreto que proibiu cassinos no Brasil, influenciado pela primeira-dama Carmela Dutra e pela pressão da Igreja Católica. O último giro de roleta aconteceu no Copacabana Palace. Oito décadas depois, o país que baniu o cassino legaliza a Mega-Sena, regula a Telesena, autoriza sorteio de geladeira na Havan e convive com o Jogo do Bicho em cada esquina. Em dezembro de 2023, a Lei 14.790/2023 finalmente regulamentou as apostas esportivas de quota fixa, as bets. A reação foi imediata: projetos para proibir tudo de novo. O argumento é proteger famílias do vício. O problema é que esse discurso ignora três fatos: 1) O Estado brasileiro já é o maior operador de jogo de azar do país; 2) Proibição nunca eliminou demanda, só criou mercado negro; 3) Vetar a bet legal é escolher, na prática, fortalecer o bicho e o site pirata. Proibir bets não é moral. É incoerente e ineficaz.

Desenvolvimento 1: O Brasil não proíbe jogo de azar. Proíbe concorrência com o Estado
A tese de que “jogo é imoral” cai no primeiro dado oficial. A Caixa Econômica Federal detém monopólio das loterias desde 1962. Em 2023, arrecadou R$ 23,4 bilhões com 11 modalidades: Mega-Sena, Quina, Lotofácil, Federal, etc. Desse total, 47,8% foi destinado à seguridade social, FIES, esporte e cultura. É jogo de azar chancelado por lei federal.

Paralelamente, a SUSEP autoriza títulos de capitalização que são, na prática, sorteios privados. Telesena, lançada em 1991 pelo Grupo Sílvio Santos, já pagou R$ 2 bilhões em prêmios. Baú da Felicidade Jequiti, Tri Legal no RS, São Paulo da Sorte, RedeTV! da Sorte: todos vendem a esperança de ganhar com a mesma mecânica da loteria. A diferença jurídica é que parte do valor “poupa”. Na prática social, é aposta.

Some-se a isso as promoções comerciais. A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda autorizou 7.842 sorteios vinculados à compra em 2023. De carro a apartamento, o brasileiro é estimulado a consumir para concorrer.

Se o critério para proibir fosse o risco de dependência, a lógica do “dinheiro fácil” ou a imprevisibilidade, todas essas modalidades cairiam. A única diferença entre apostar R$ 5 na Quina e R$ 5 no time do coração é quem opera e quem tributa. A primeira recolhe na fonte. A segunda, até 2023, não tinha regra. Logo, o Estado não combate o azar. Combate o azar que não paga imposto.

Desenvolvimento 2: A proibição de 1946 criou o maior mercado ilegal de jogos do Ocidente
O Jogo do Bicho foi criado em 1892 pelo Barão de Drummond. É contravenção penal há 78 anos. Segundo estudo da FGV de 2022, movimenta R$ 12 bilhões por ano, está presente em 100% dos municípios brasileiros e emprega 450 mil pessoas direta ou indiretamente. Não recolhe ISS, não emite nota, não tem jogo responsável. O mesmo ocorre com bingos clandestinos e máquinas de caça-níquel. A cada operação da polícia que fecha 10 pontos, 20 abrem na semana seguinte.

As bets repetiram o roteiro. Sem regulação até 2023, o Brasil se tornou o 3º maior mercado do mundo em volume de apostas, com R$ 120 bilhões movimentados segundo a consultoria H2 Gambling Capital. Tudo em sites .com, hospedados em Curaçao, sem limite de depósito, sem verificação de idade, sem botão de autoexclusão.

O argumento central pela proibição é o endividamento. De fato, pesquisa Datafolha de 2024 aponta que 15% dos apostadores em bets contraíram dívidas. O dado é grave e exige ação. Porém, ele não sustenta a tese da proibição seletiva. O mesmo levantamento mostra que 22% dos apostadores de loteria de baixa renda comprometem mais de 10% do salário com bilhetes, e o Serasa indica que o cartão de crédito é causa de dívida para 78% dos inadimplentes. A diferença é que, na bet regulada, a Lei 14.790/2023 obriga ferramentas de limite de depósito, alerta de tempo de tela, pausa obrigatória e autoexclusão. No Jogo do Bicho ou no site ilegal, não existe nem CPF na jogada. Proibir a bet legal não acaba com o endividamento. Só transfere o jogador vulnerável do ambiente com trava para o ambiente sem freio. Se a meta é proteger a renda, o caminho é educação financeira e fiscalização da SPA, não o decreto de 1946.

Desenvolvimento 3: Regulação é proteção. Proibição é omissão
A Lei 14.790/2023 impõe: 1) Outorga de R$ 30 milhões para operar; 2) Tributação de 12% sobre o GGR + 15% de IR no prêmio; 3) Verificação facial, CPF, maioridade; 4) Ferramentas de limite de perda, pausa e autoexclusão; 5) Verba obrigatória para jogo responsável. A estimativa do Ministério da Fazenda é arrecadar R$ 12 bilhões por ano. É dinheiro que hoje financia paraíso fiscal.

Manter a bet na legalidade permite ainda combater manipulação de resultados. Com operador regulado, a CBF, o COB e a Polícia Federal têm acesso a dados de apostas atípicas. No mercado negro, o aliciador de jogador age no escuro.

Países que proíbem jogo: Arábia Saudita, Indonésia, Islândia. Países que regulam: 32 dos 34 membros da OCDE, todos do G7. O Brasil, ao lado de Cuba, é o único não islâmico do G20 que ainda insiste na tese de 1946. O resultado: perde em turismo, emprego e imposto para Las Vegas, Punta del Este e até para o Paraguai, que tem cassino na fronteira.

Conclusão
Vetar as bets em nome da família brasileira é um sofisma. O mesmo Estado que quer proibir a aposta no celular vende bilhete da Loteria Federal na agência ao lado da escola. O mesmo país que diz que jogo destrói vidas mantém o Jogo do Bicho como instituição nacional há 130 anos. A escolha real não é entre “mundo com bets” e “mundo sem bets”. O brasileiro já aposta. A escolha é entre aposta legal, com regra, imposto, fiscalização da SPA e proteção ao vulnerável, ou aposta ilegal, sem rosto, sem limite e com lucro para o crime. Se o objetivo é moral, que se proíba tudo: feche a Caixa, cancele a Telesena, criminalize a rifa da igreja. Se o objetivo é racional, regula-se tudo com a mesma régua. O azar não vai acabar por decreto. Mas a hipocrisia pode.

Qual a variação de delay entre transmissões da CazéTV e da TV aberta na Copa?

Por Danilo Teixeira, Gestor de Pessoas e Processos do Jornal do Comércio e mestre em Comunicação pela PUCRS

O gol sai na casa do vizinho antes de aparecer na televisão. O grito da torcida chega pelo apartamento ao lado enquanto quem acompanha a partida ainda vê um jogador se preparando para cobrar o escanteio. A cena tem se repetido durante a Copa do Mundo de 2026.
O motivo é o chamado “delay”(atraso em inglês) nas transmissões, diferença de tempo entre a imagem exibida por diferentes plataformas. Neste Mundial, milhões de brasileiros se dividem entre as transmissões da TV aberta e plataformas digitais.
De um lado, Globo e SBT, que exibem jogos pela televisão. Do outro, a CazéTV, no YouTube, que se consolidou no streaming. A Globo, em meio a essa batalha, lançou a campanha “Fique antenado”, que incentiva o uso da antena digital para acompanhar a Copa.

Por que existe essa variação de tempo entre as transmissões, conhecida por ‘delay’?

O atraso entre uma transmissão e outra acontece por causa do caminho percorrido pelo sinal até chegar ao telespectador. Na TV aberta, o sinal sai do centro de transmissão e chega praticamente em tempo real ao televisor por meio das emissoras e retransmissoras digitais.
Embora exista um pequeno processamento, o atraso é de alguns segundos. Já no streaming, o processo é mais complexo. A imagem precisa ser capturada, codificada, enviada para servidores, distribuída pela internet e adaptada automaticamente à velocidade da conexão de cada usuário.
Esse conjunto de etapas pode acrescentar entre 20 e 30 segundos de atraso, segundo levantamento da Revista Veja.

Como assistir com o menor atraso possível?
Para quem deseja acompanhar os jogos praticamente em tempo real, a TV aberta continua sendo a alternativa mais rápida. Desde o desligamento do sinal analógico no Brasil, as emissoras utilizam exclusivamente a transmissão digital terrestre.
Para recebê-la basta que o televisor tenha conversor digital, que já vem nos aparelhos fabricados recentemente e uma antena UHF instalada corretamente. Em áreas urbanas, uma antena interna costuma ser suficiente quando o sinal é forte.
Após conectar a antena ao televisor, basta realizar a busca automática de canais para encontrar as emissoras. Mais informações sobre instalação de antena digital no site “Siga Antenado” do Governo Federal (sigaantenado.com.br).

Como assistir pela internet?
O crescimento do streaming transformou o YouTube em uma das principais plataformas para acompanhar a Copa do Mundo. A CazéTV transmite partidas ao vivo diretamente em seu canal oficial, gratuitamente. Para assistir, basta acessar o YouTube pelo computador, celular, tablet ou Smart TV, pesquisar pelo canal e selecionar a transmissão disponível no horário do jogo.

De quem é a agência?

Por Regina Augusto

Dentro de poucos dias, as atenções de uma parte significativa da indústria publicitária global estarão voltadas à Riviera Francesa — a outra parte estará na América do Norte, onde se realiza a maior Copa do Mundo da história — quando terá início o Cannes Lions. Esse evento é um importante marcador temporal das transformações da nossa indústria e terei a oportunidade de acompanhá-lo pela vigésima vez. Na minha primeira edição, ainda no apagar das luzes do século passado, o Festival de Cannes era um reduto de criativos de agências de publicidade. Ao longo das últimas três décadas e, sobretudo na última, quem paga a conta das agências, os anunciantes, ganhou protagonismo cada vez maior nessa festa.

O gigantismo do evento, seus altos custos e seu papel de régua do estado da arte criativo mundial abriram espaço, ao longo dos anos, para uma série de anomalias, cometidas com a anuência de todos os envolvidos, é bom que se diga, na corrida pelo graal da criatividade: os tão desejados leões. As premiações em Cannes se tornaram parâmetros poderosos para enquadrar profissionais, agências, redes e holdings.

No entanto, a edição de 2026 do festival começa sob um clima diferente do habitual otimismo pré-Cannes. Pela primeira vez em décadas, o vocabulário que cerca o evento lembra mais o de uma área de compliance do que o de um festival de criatividade: auditoria, declaração de uso, banimento, verificação dupla.

A razão é conhecida e, para o mercado brasileiro, ainda dolorosa. Em 2025, o case “Consumo Eficiente de Energia”, da DM9 para a Consul, marca da Whirlpool, tornou-se o maior exemplo de manipulação de informações por meio de IA para turbinar alcance e resultados. O efeito em cascata levou o Cannes Lions a criar, para 2026, os Global Integrity Standards (Padrões Globais de Integridade), com regras que tentam separar a IA como ferramenta de produção da IA como parte indissociável da ideia criativa.

Uma das mudanças é a subcategoria AI Craft, presente em trilhas como Design, Digital Craft, Film Craft, Industry Craft e Creative Data. O critério é exigente: não basta ter usado IA em algum momento; é preciso provar que o conceito, a execução ou o impacto do trabalho seriam impossíveis sem ela.

A segunda frente é a verificação. Toda peça inscrita passa por um filtro automatizado, modelo de IA da própria organização, treinado para rastrear irregularidades, seguido de revisão humana por especialistas independentes em mensuração.

O ponto mais simbólico é a responsabilização pessoal: as agências terão de declarar em detalhe quais ferramentas de IA usaram e como aplicaram os dados, e os números de efetividade precisarão de assinatura digital do CEO da agência e do CMO da marca anunciante. Em casos de fraude comprovada, a punição pode chegar a três anos de banimento do festival.

Há uma ambiguidade entre essas novas regras e a assinatura desta edição do festival: “Where Creativity Drives Progress” (Onde a criatividade impulsiona o progresso, em tradução livre). A criatividade é apontada por especialistas e pensadores contemporâneos como uma das capacidades mais genuinamente humanas justamente diante do avanço da inteligência artificial. E é esse mesmo palco de estímulo e celebração da criatividade que agora impõe regras para que ela não seja obliterada pela própria IA.

Há cerca de um mês, outra instituição se debruçou sobre um dilema semelhante, em escala bem maior: a encíclica do papa Leão XIV, Magnifica Humanitas (A Grandeza da Humanidade), dedicada aos impactos globais da inteligência artificial e objeto de ótima análise de Gabriela Rodrigues, neste mesmo espaço. A premissa central do documento assinado pela autoridade máxima da igreja católica é que o progresso tecnológico não deve ser medido por eficiência ou valor de mercado, mas pelo impacto na dignidade humana e no bem comum e que a tecnologia não é neutra, pois carrega as escolhas, os preconceitos e os interesses de quem a financia.

Não é a primeira vez que a Igreja usa uma encíclica para responder a uma transformação estrutural do mundo. Em 1891, a Rerum Novarum (Sobre as Coisas Novas) tratou dos direitos dos trabalhadores na Revolução Industrial. Magnifica Humanitas foi assinada no dia em que a Rerum Novarum completou 135 anos. O paralelo é direto: assim como a Revolução Industrial exigiu pensar o lugar do trabalhador diante da máquina, a revolução da IA exige pensar o lugar do ser humano diante do algoritmo.

Universos distintos, preocupação convergente: tanto o festival quanto a Igreja tentam reafirmar a agência humana — não aquela premiada em Cannes com os cases que cria — num mundo cada vez mais mediado por plataformas de IA.

Há quem veja essas novas regras como cerceadoras da liberdade criativa ou descoladas da realidade de quem usa IA no dia a dia. É um ponto de vista legítimo, mas talvez ingênuo. O uso de IA é regra: está nos briefings, nos pitches, nas entregas. As próprias agências o estimulam, os clientes o exigem, e cada profissional da indústria já incorporou a ferramenta ao seu fluxo de trabalho, em muitos casos, seu uso virou KPI de desempenho, com impacto direto em metas e bônus.

Diante disso, a pergunta que o Festival de Cannes Lions parece querer evitar é outra e volta à origem do festival, ao filme publicitário como sua peça mais emblemática: quais são os limites desse progresso que a criatividade deve impulsionar? Essa é a provocação real por trás do tema desta edição e a única que, de fato, ainda não tem resposta pronta em nenhum briefing, regulamento ou encíclica.

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